Título: Sopro de abertura na China
Autor: Scofield Jr., Gilberto
Fonte: O Globo, 26/06/2007, O Mundo, p. 22
Escândalo de escravos faz governo liberar imprensa para cobrir calamidades sem autorização prévia.
Gilberto Scofield Jr.
Oepisódio envolvendo a descoberta de um esquema de uso de mão-de-obra infantil e escrava em massa nas olarias do interior da China ¿ denunciada por um jornal da província de Shanxi ¿ provocou uma inesperada reviravolta na tentativa das autoridades chinesas de restringir o trabalho da imprensa, submetendo-a à autorização dos governos central e provinciais na cobertura de emergências públicas.
O Comitê Permanente do Congresso Nacional do Povo (CNP), que cuida da elaboração da legislação seguindo a orientação do governo e do partido, anunciou ontem que a nova versão do projeto de lei (previsto para ser votado em 2008) acaba com a punição (multa de até 100 mil yuans, ou US$13,1 mil) para os veículos que fizerem reportagens sobre emergências públicas sem autorização prévia. Wang Maolin, vice-diretor do Comitê Legal do CNP, evitou ligar a decisão ao episódio do uso de mão-de-obra escrava e infantil:
¿ O uso da expressão ¿sem autorização prévia dos governos¿ causou muita discussão e os legisladores argumentaram que era inapropriado estabelecer restrições ao trabalho da mídia. Nós mantivemos a multa apenas para os casos em que a mídia espalhar pânico infundado entre a população.
Mídia estatal fez apelo inédito
Na nova lei, os governos continuam sendo obrigados a prover informações precisas, e em tempo adequado, no caso das emergências públicas. O conceito do que são tais emergências não foi explicado, mas é interpretado pela mídia estatal como uma série de acontecimentos que incluem epidemias súbitas, acidentes com conseqüências ambientais ou mesmo crimes com conluio de funcionários públicos, como o uso de mão-de-obra escrava e infantil em grandes proporções.
O episódio dos trabalhadores escravos já havia causado um inédito apelo de dois dos diários mais influentes e importantes da China na semana passada: o estatal de língua inglesa ¿China Daily¿ e o ¿China Youth Daily¿, com circulação de um milhão de exemplares. Os artigos pediam que os jornais chineses investigassem mais e buscassem auxiliar a população na descoberta de irregularidades envolvendo autoridades.
A princípio, os pedidos parecem ingênuos ao comentar que a tradição chinesa de ¿salvar a cara¿ a qualquer custo ¿ ou seja, manter as aparências, mesmo que através de mentiras ¿ faz do jornalismo chinês um coadjuvante nas desculpas dadas por empresários e funcionários do governo em episódios escabrosos. Afinal, a imprensa é 100% controlada pelo Estado, que decide o que pode sair nos jornais. Mas o desenrolar dos textos ¿ um editorial no ¿China Daily¿ e uma reportagem no ¿China Youth Daily¿ ¿ prega um jornalismo mais independente e critica o deslumbramento dos chineses (e do próprio governo) com a riqueza rápida como fatores que embaçam a percepção de injustiças variadas, sobretudo no interior.
¿Atividades chocantes similares (ao da escravidão) podem continuar existindo aqui e ali se buracos no sistema não forem tapados. Um deles é a falta de reportagens investigativas na imprensa chinesa. A outra é a corrupção entre funcionários dos governos locais encarregados de fiscalizar o cumprimento da lei... Apesar das premiações que enchem as páginas dos jornais todos os dias, nunca houve um prêmio para o jornalismo investigativo na China¿, afirma You Nuo em seu editorial no ¿China Daily¿.
Na reportagem do ¿China Youth Daily¿, que entrevista o primeiro jornalista a denunciar o uso de mão-de-obra escrava no país, Fu Zhenzhong, o texto afirma que o trabalho jornalístico foi prejudicado no episódio das olarias por conta dos funcionários do governo da província de Shanxi. ¿A coisa mais impressionante foi a frieza dos fiscais locais¿, diz Fu.