Título: Empréstimo por novilha, mesmo tendo 6 mil bois
Autor: Gois, Chico de
Fonte: O Globo, 27/06/2007, O País, p. 5

SUCESSÃO DE ESCÂNDALOS: PSOL pedirá cassação de senador ao Conselho de Ética e depoimento de Nenê Constantino.

Roriz, que alega ter pedido dinheiro a empresário para comprar uma bezerra, tem grande criação de gado em Goiás.

BRASÍLIA. O senador Joaquim Roriz (PMDB-DF), que afirma ter pedido um empréstimo de R$300 mil para o "pagamento inadiável" de uma novilha, dando a entender que não tinha recursos disponíveis para tanto, tem na Agropecuária Palma, que está em nome das três filhas, uma grande criação de gado reconhecida no meio como de ótima qualidade. Além disso, a fazenda tem um haras com cavalos manga-larga marchador ganhadores de prêmios. Roriz alega que pediu o dinheiro ao amigo Nenê Constantino, dono de empresas de ônibus no Distrito Federal e da companhia aérea Gol. Ele diz que adquiriu o animal em 12 de março.

A Palma, localizada em Luziânia (GO), a menos de 50 quilômetros do Centro de Brasília, ocupa uma área de 12 mil hectares (120 milhões de metros quadrados, o que equivale a 14.545 campos do Maracanã) e, conforme reportagem especial exibida no sábado passado no "Canal do Boi", "é um exemplo para qualquer propriedade". No programa, o responsável pelo bem-sucedido empreendimento é apresentado como "um dos mais atuantes políticos brasileiros, Joaquim Roriz".

Produtos são vendidos nos supermercados de Brasília

Apesar da prosperidade, a propriedade está inscrita na dívida ativa da Previdência Social. O site do ministério aponta que a empresa deve R$1,490 milhão. A assessoria do senador questiona essa informação, embora admita que a fazenda foi autuada pela Previdência e que parte desse valor foi parcelada e outra parte está sendo contestada.

Em sua declaração de bens, entregue ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) em 2006, Roriz informa que era proprietário de 6.227 bovinos, avaliados em R$2,850 milhões, mais 51 suínos, que valeriam R$5,1 mil. Nada foi dito sobre os cavalos que, segundo a assessoria, pertencem à fazenda, e não nominalmente ao senador. Roriz anotou que é credor de R$500 mil da Agropecuária Palma, e proprietário de outras duas fazendas que, juntas, valeriam R$100 mil.

A Agropecuária Palma exibida no "Canal do Boi" é "um império agropecuário", como definiu o programa. Em 12 mil hectares estão instalados moradias para 300 funcionários, "moderno confinamento" com capacidade estática para 11 mil cabeças próprias e de terceiros, 42 estufas de horticultura, uma fábrica de laticínios, reflorestamento anual de 2,5 milhões de mudas clonadas de eucaliptos e laboratórios para fertilização in vitro.

A Agropecuária produz diariamente 25 mil litros de leite, além de 20 diferentes produtos, como leite tipo A, queijos, doces, manteiga e creme de leite - todos largamente comercializados nos principais supermercados do Distrito Federal.

O gado leiteiro ocupa três galpões, com capacidade para 720 vacas. Em seu plantel há campeãs cujo valor de venda não é divulgado, mas supera os R$300 mil que Roriz diz ter pago por uma novilha. Como apontou o "Canal do Boi", duas das mais consagradas vacas do Brasil, a Jaiama e a Betina, passeiam tranqüilamente pelo pasto da fazenda. Entre os mangas-largas, há um que já venceu mais de 50 campeonatos. O time campeão bovino tem ainda em destaque o touro Johnny, que venceu quatro campeonatos no ano passado, além da vaca Profana, campeã mundial de lactação, com produção de 17.132 quilos de leite em 2006.

A Palma é freqüentadora assídua de leilões e campeã em várias modalidades. No domingo passado, por exemplo, colocou à venda cem animais, como informou o gerente da fazenda, Ismael Ferreira, entrevistado pela reportagem do "Canal do Boi". Foi a primeira vez, como afirmou Ferreira, que a fazenda participou de leilão virtual.

Primo investigado se afasta do governo do DF e do BRB

Na reportagem, Roriz aparece acariciando um de seus touros reprodutores e atesta a qualidade do rebanho. Ele também sugere que a população beba mais leite, porque "faz bem à saúde".

Ontem, o advogado Benjamim Roriz, de 86 anos, primo em terceiro grau do senador, que teria sido destinatário de R$28,6 mil do saque da conta de Constantino, pediu afastamento dos cargos que ocupava no governo do Distrito Federal. Benjamim era assessor especial do governador José Roberto Arruda (DEM) e presidente do conselho deliberativo do Banco de Brasília desde junho de 2004, ainda na gestão do primo. Ele decidiu se afastar das funções até o fim das investigações. O PSOL quer convocar Nenê Constantino para depor no Conselho de Ética sobre o empréstimo. A representação em que pede a cassação de Roriz por quebra de decoro parlamentar será apresentada amanhã ao Conselho. O PSOL quer também ouvir Roriz; o reitor da Associação de Ensino de Marília (Unimar), Márcio Mesquita Serva; e o ex-presidente do Banco Regional de Brasília Tarcísio Franklin de Moura; além de fazer uma perícia nos documentos apresentados pela defesa.

Também amanhã, o PSOL vai realizar um ato público pedindo o afastamento do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).