Título: Ceticismo no Oriente Médio
Autor: Duarte, Fernando
Fonte: O Globo, 28/06/2007, O Mundo, p. 29

Aliança de Blair com Bush poderia atrapalhar nova missão do ex-premier.

JERUSALÉM. Enquanto Gordon Brown finalmente herdava o governo britânico ontem, Tony Blair dava os primeiros passos de uma vida de ex-primeiro-ministro e de diplomata internacional. Blair superou resistências da Rússia e se tornou um enviado para o Oriente Médio trabalhando em nome de Estados Unidos, Rússia, ONU e União Européia, o Quarteto. Sua tarefa será promover o desenvolvimento econômico palestino, assim como assessorar a construção das instituições do futuro Estado palestino.

Ele anunciou sua nova tarefa num discurso aos eleitores de seu distrito eleitoral, Sedgefield, no norte da Inglaterra, e disse que renunciava ao cargo de deputado, que mantinha desde 1983. Isso provocará uma eleição extra mês que vem, pois não há suplentes no sistema eleitoral britânico.

Mas ainda existem reservas quanto à capacidade de Blair para agir como negociador aceito por todos no Oriente Médio, devido a seu apoio inequívoco ao presidente dos EUA, George W. Bush, na guerra no Iraque. Outro ponto levantado foi o fato de ele não ter pedido uma interrupção no bombardeio realizado no Líbano por Israel, na guerra contra o Hezbollah.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, teve ¿conversas positivas¿ com Blair antes de o ex-primeiro-ministro ser confirmado no novo posto durante um encontro do Quarteto, em Israel.

Parlamentares de esquerda e antiguerra do Partido Trabalhista, de Blair, demonstram abertamente serem céticos em relação a seu papel. Alan Simpson, integrante do Grupo de Campanha Trabalhista, é um deles:

¿ Não consigo ver como Blair, que nos levou à guerra contra o Iraque, possa fazer qualquer coisa para levar paz à Palestina.

A indicação foi anunciada oficialmente pelo Quarteto depois de um dia de negociações diplomáticas. O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, e o premier de Israel, Ehud Olmert, deram boas-vindas à notícia. Mas ela foi recebida com ceticismo por Ghazi Ahmad, porta-voz de Ismail Haniyeh, o líder do Hamas que se recusou a aceitar sua demissão do cargo de primeiro-ministro.

¿ Nossa experiência com Tony Blair como primeiro-ministro do Reino Unido não foi encorajadora. Ele sempre adotou as posições dos Estados Unidos e de Israel ¿ disse Hamad.

O anúncio oficial diz que Blair dedicará ¿um tempo significativo¿ na região e terá uma pequena equipe baseada em Jerusalém para cumprir a missão.