Título: Parlamento ovaciona Blair
Autor: Duarte, Fernando
Fonte: O Globo, 28/06/2007, O Mundo, p. 29
Premier é aplaudido de pé até por adversários em sua despedida e pede desculpas pelo Iraque.
Nos últimos dois ou três anos, muito se falou sobre como Tony Blair deixaria Downing Street pela porta dos fundos, tamanha sua queda de popularidade como primeiro-ministro do Reino Unido desde sua messiânica chegada ao poder, em 1997. Porém, o fim da era Blair foi marcado ontem por uma comovente e surpreendente despedida no Parlamento britânico em que o premier, emocionado, foi aplaudido de pé até pelos deputados da oposição ao fazer seu último pronunciamento na sabatina semanal. Cerca de duas horas depois, seu sucessor, o ex-ministro das Finanças Gordon Brown, já fazia seu primeiro discurso como o 52º líder do governo britânico, exibindo um nervosismo diante das câmeras jamais mostrado pelo antecessor.
Enquanto isso, já sem escolta e tendo oficializado sua renúncia junto à rainha Elizabeth II, o mais bem-sucedido premier trabalhista da História do país carregava sua própria mala e caminhava como um mero mortal pela estação ferroviária de King¿s Cross, no norte de Londres, para apanhar o trem que o levaria à cidade de Sedgefield, seu domicílio eleitoral. Lá, ele anunciou, no fim da tarde, sua decisão de também abrir mão da vaga parlamentar que ocupava desde 1983. Não apenas diante da dificuldade de ocupar uma posição secundária, mas pela oferta ¿ que aceitou ¿ para representar os interesses do Quarteto, o grupo formado por Rússia, União Européia, Estados Unidos e ONU nas negociações de paz no Oriente Médio.
Líder conservador elogia ex-premier
A sessão parlamentar não foi apenas incomum pela quebra das regras, que impedem aplausos na Câmara dos Comuns, mas pela cordialidade do ambiente. O líder do Partido Conservador, David Cameron, evitou perguntas mais desafiadoras a Blair e fez um pronunciamento elogioso ao trabalho do adversário:
¿ Gostaria de felicitar Blair pelo admirável feito de ter sido primeiro-ministro por dez anos. Ninguém pode questionar que o tremendo esforço feito no cargo e realizações como a pacificação da Irlanda do Norte e o trabalho junto aos países menos desenvolvidos ficarão na História. Desejo a ele e sua família todo sucesso no futuro.
Blair, lutando para disfarçar a emoção, agradeceu a Cameron, embora tenha brincado que não poderia desejar muito sucesso político ao rival. Em seu discurso de encerramento, o premier não deixou de mencionar a polêmica invasão do Iraque, uma medida que azedou seu relacionamento com o seu Partido Trabalhista e o povo britânico e surge como a grande mancha em seu currículo político. Pediu desculpas pelas mortes britânicas na campanha iraquiana e pelos perigos que as tropas do país ainda enfrentam na região.
O momento mais emocionante, porém, foi o último pronunciamento de Blair. Olhando para baixo, talvez para esconder uma lágrima furtiva, o premier fez um tributo ao trabalho da classe política antes de uma rápida mensagem de despedida:
¿ Desejo a todos, amigos ou adversários, tudo de bom. Bem, é o fim.
Ao seu lado, na bancada governista, estava Brown, que depois da sessão foi despedir-se dos funcionários do Ministério das Finanças e de lá partiu para uma audiência de 50 minutos com Elizabeth II. Ao voltar a Downing Street, desta vez para ocupar a casa de número 10 ¿ e não mais a propriedade vizinha, onde morou nos últimos dez anos ¿ o novo premier, na companhia da mulher, Sarah, prometeu o máximo de esforço para transformar o Reino Unido na maior história de sucesso do século XXI, além de novos rumos.
¿ Este será um governo com novas prioridades. Sei da necessidade de mudança, e essa mudança não será conseguida com a velha política ¿ disse Brown, que revelou que suas prioridades serão educação, saúde e ¿restaurar a confiança na política¿.
¿ Cito o lema da minha escola primária (em Kirkcaldy, uma pequena cidade industrial escocesa): vou dar o meu máximo e essa é a minha promessa para o povo britânico ¿ afirmou o escocês antes de entrar na casa.
Uma das primeiras atribuições de Brown será nomear um novo Gabinete.
Há grandes expectativas em relação ao anúncio, programado para hoje, sobretudo quanto às pastas de Finanças, Interior e Relações Exteriores. Curiosamente, um dos nomes cotados é o de David Milliband, um jovem parlamentar trabalhista ligado a Blair e cujo nome foi recentemente lançado por alguns aliados do agora ex-premier como um possível adversário de Brown em sua sucessão.
Se Blair saiu com graça, o mesmo não pode se dizer de sua mulher, Cherie. Ao entrar no carro que levou o casal para o Palácio de Buckingham, ela deu seu último recado para o batalhão de repórteres que durante anos acampou em sua porta:
¿ Adeus. Não vou sentir saudades de vocês...