Título: Na hora da dor, família pede paz. E justiça
Autor: Lins, Letícia
Fonte: O Globo, 29/06/2007, O País, p. 3

Parentes do casal assassinado em SP protestam contra a impunidade.

Em clima de indignação contra a violência e a impunidade, expressada por parentes e amigos, muitos dos quais usando camisetas brancas com a palavra paz bordada em azul, os corpos do analista de sistemas Glauber Alexandre Shiba Paiva, de 37 anos, e de sua mulher, Marta Maria Sena de Oliveira, 30 anos, foram sepultados ontem no cemitério Parque das Flores, em Recife. O filho do casal, Gabriel, de 7 anos, só ontem tomou conhecimento das mortes dos pais, e compareceu ao enterro com avós, tios e primos. Desde a tragédia ¿ Glauber e Marta foram assassinados durante um assalto em São Paulo, na última terça-feira ¿, o menino, que estava no carro no momento do assalto, só consegue desenhar imagens da violência, com monstros e caveiras, segundo informaram seus tios.

Os corpos do casal chegaram a Recife pelo vôo 3506 da TAM, pouco depois das 13h de ontem. Do Aeroporto dos Guararapes, seguiram direto para o Parque das Flores, no bairro do Curado, zona norte da capital, onde cerca de 250 pessoas os aguardavam. Muito traumatizada, mas ainda encontrando forças para falar, a mãe de Glauber, Marie Shiba, fez um apelo emocionado às autoridades do país, que, para ela, encontra-se mergulhado em leis obsoletas e na impunidade.

¿ Sou uma cidadã, trabalho como agente ambiental, e não acho justo que uns meninos que, sem profissão e se valendo de não querer fazer nada, aproveitem para ceifar a vida de dois indivíduos, do meu filho que criei com tanto amor, e tenham deixado meu netinho de 7 anos sem pai nem mãe. Eles eram uma família muito unida, inclusive ele com os pais dele e ela também com os pais dela ¿ disse Marie.

`Menores estarão fora em três anos¿

A mãe de Glauber se referiu à suspeita de que os rapazes que assaltaram o casal em um cruzamento do Morumbi, Zona Sul de São Paulo, sejam menores de idade.

¿ Em três anos, esses menores estarão fora da cadeia. Gostaria muito que este crime fosse realmente investigado e que se mudassem as leis deste país, para que se reduzam esses índices de violência. E o pior é que isso acontece em todo canto. É em Recife, no Rio, em São Paulo, no exterior. Fica tudo impune, é preciso mudar as leis, o poder público deste país. O verdadeiro culpado de coisas como esta é o governo, é a sociedade. As pessoas fazem filhos sabendo que não possuem estrutura para encaminhá-los no rumo certo. Todo dia é assalto, é violência, é arma, enquanto o cidadão direito fica desarmado, desprotegido. Os bandidos estão aí com armas cada vez mais sofisticadas ¿ completou a mãe da vítima.

Sem esconder a revolta, Marie disse que continuará acreditando na Justiça e na possibilidade de paz. A seu lado, o pai do analista, Wilson Paiva, de 72 anos, mal conseguia falar.

¿ Preciso acreditar na Justiça, mas, se ela não funcionar, tenho que esperar pela justiça divina. Vou continuar acreditando na possibilidade de paz. A gente vai tentando fazer brotar uma semente de paz e, se ela crescer, pode-se se dizer que foi um ação vitoriosa ¿ afirmou Marie.

O irmão de Glauber, Gerson Shiba, informou que Gabriel recebeu apoio de psicólogos em São Paulo e em Recife, que o ajudaram a entender a tragédia que atingiu a família. Ele revelou que o menino achava que o pai havia levado um tiro e que a mãe desmaiara. Somente ontem ele soube que estavam mortos.

A mãe foi a primeira a ser alvejada pelos bandidos. Logo após os tiros, Glauber parou o carro e foi abraçar o menino, que estava no banco traseiro. Mas foi baleado pelas costas.

Gabriel tivera uma espécie de premonição no dia do crime. Uma tia, a artista plástica Suely Shiba, contou que, enquanto esperava os pais para ir ao aniversário do colega, fez um desenho com quatro imagens de caveiras, helicópteros da polícia e policiais militares, como se estes fossem socorrer alguém.

¿ O menino dizia ainda que precisava da polícia ¿ disse Suely.

Segundo um tio de Gabriel, Gerson Shiba, o garoto praticamente não fala na tragédia, mas tem insistido em desenhos com cenas fortes de de violência, povoadas de caveiras e monstros. Ontem, enquanto seus pais eram velados, ele andava pelo gramado do cemitério com algumas primas, observado por tios. A família até ontem ainda não havia decidido quem ficaria com o garoto, se os avós maternos, os paternos ou o tio Gerson. Ele disse que vai se associar a entidades que lutem contra a violência e que forcem a sociedade a tomar atitudes contra a criminalidade.

Engenheira agrônoma, Febe Oliveira é prima de Marta.

¿ Éramos como irmãs. A família está sentindo muita dor, revolta e indignação com a impunidade neste país. O retrato da violência no Brasil está em todos os lugares. Sinceramente, não espero nada das autoridades, porque todos os dias a coisa se agrava e a gente não vê solução ¿ afirmou.

Ela disse que Gabriel saiu do estado de choque com a ajuda de psicólogos e que todo o empenho da família, neste momento, é para preservá-lo e suprir o carinho que seria dado pelos pais.

Funcionário público e amigo da mãe de Glauber, Marcelo Almeida deu um retrato da cultura da violência hoje no Brasil:

¿ Faltam leis, falta Justiça, falta mais solidariedade ao cidadão. A vida não vale mais nada neste país.

Outro amigo da família, Geraldo Magalhães disse que o país chegou ao limite do suportável.

¿ A gente fala de paz, mas bandido não liga. Bandido só quer matar.