Título: Todos são inocentes, até prova em contrário
Autor: Gois, Chico de
Fonte: O Globo, 29/06/2007, O País, p. 11

SUCESSÃO DE ESCÂNDALOS: Dilma também faz defesa do presidente do Senado: "Ele é inocente. Esta é a presunção".

Na posse do procurador-geral, e ao lado de Renan, Lula se queixa da PF e do MP pelo vazamento de informações.

BRASÍLIA. Um dia depois de recorrer ao Palácio do Planalto para reclamar do que considera abandono dos aliados, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), obteve ontem uma manifestação explícita a seu favor por parte do presidente Lula, que cobrou responsabilidade do Ministério Público e da Polícia Federal na divulgação de informações sobre investigados. Antes da declaração de Lula, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, falou da suposta inocência do peemedebista, que ainda não convenceu alguns de seus pares sobre a origem dos recursos para pagar pensão à jornalista Mônica Veloso, com quem tem uma filha.

Ao falar sobre a democracia e direitos individuais, Dilma foi perguntada se isso se aplicava a Renan. Depois de afirmar que a presunção da inocência se aplica a todos, a ministra passou a discorrer sobre a luta contra a ditadura e disse que ninguém é culpado até que se prove o contrário. Depois, finalizou:

- Ele (Renan) é inocente. Esta é a presunção.

Afastado das cerimônias do Planalto desde o dia 11, Renan participou do anúncio do plano agrário 2007/2008 e da posse do procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, para o segundo mandato. Foi na posse do procurador que Lula, sem citar nomes, fez uma defesa comum em seus discursos, mas que ganhou destaque pela presença de Renan: ninguém é culpado até que se prove a culpa:

- Eu sempre parto do pressuposto de que a democracia garante que todos, sem distinção, são inocentes até prova em contrário e que, portanto, todos precisam ter um julgamento feito com a maior lisura possível.

Queixas ao MP e à PF em frente ao procurador

Em seguida, Lula disse que queria fazer um pedido e, à frente do procurador, afirmou:

- Uma coisa que me inquieta como cidadão, que me inquieta no comportamento da Polícia Federal e do Ministério Público, é muitas vezes não termos o cuidado de evitar que pessoas sejam execradas publicamente antes de serem julgadas.

A declaração do presidente tem uma leitura familiar, uma vez que seu irmão, Genival, o Vavá, foi indiciado pela PF por tráfico de influência, embora o MP não o tenha denunciado.

- Não há nada pior para a democracia do que alguém ser condenado sem ter cometido crime - disse.

Antonio Fernando disse não ter se sentido atingido pelas declarações e nem constrangido pela presença de Renan.

- A preocupação sobre se as investigações estão sendo bem feitas é nossa também. Esse é o exemplo que eu tenho procurado deixar - afirmou.

Renan nada falou. Pelo protocolo, caberia a ele, como presidente do Congresso, fazer uma saudação ao procurador-geral, mas ele passou a vez ao presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP). Depois, saiu sem falar com a imprensa, como fez Lula.

COLABOROU: Bernardo de Mello Franco