Título: O bloco do 'cada-um-por-si'
Autor: Oliveira, Eliane
Fonte: O Globo, 29/06/2007, Economia, p. 27
EL PATITO FEO
Reunião de cúpula do Mercosul é marcada por insatisfação crescente de países-membros.
Areunião de cúpula de chefes de Estado do Mercosul, que começa hoje na capital paraguaia, trará à tona pelo menos um ponto em comum: a insatisfação com o bloco. Governos, empresários e a sociedade em geral estão, cada um com suas razões, em posição desconfortável com uma união aduaneira que não avança devido aos problemas internos e à morosidade na procura de acordos comerciais com outros mercados de fora da América do Sul.
Um das conseqüências desse quadro de estagnação e do tempo perdido com pendências internas é a ausência dos presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e dos associados Alvaro Uribe, da Colômbia, e Alan Garcia, do Peru. Chávez, que preferiu negociar comércio e armamento na Rússia, na Bielo-Rússia e no Irã, já demonstra uma posição independente e não dá sinais de que reduzirá facilmente suas tarifas de importação.
O vice-chanceler venezuelano, Rodolfo Sanz, disse ontem que seu governo não fará qualquer tipo de retratação aos parlamentares brasileiros em troca da aprovação, pelo Senado, da adesão de seu país ao Mercosul. A declaração foi uma resposta à sugestão de aproximação feita pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, em entrevista ao GLOBO.
Paraguai rejeita barreiras do Brasil
Para piorar a situação, o Paraguai vetou ontem medida importante prometida pelo governo brasileiro para compensar as indústrias de confecções e calçados pelas perdas causadas pelo real valorizado: o aumento para 35% das tarifas de importação desses produtos. A elevação, anunciada há cerca de um mês pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, precisava da aprovação de todos os sócios do Mercosul. Os paraguaios sugeriram que o assunto seja resolvido antes entre os empresários dos quatro países.
Um sinal do desentendimento entre os países do bloco é o editorial de primeira página publicado na edição de ontem do diário paraguaio "ABC Color". Segundo o jornal, Argentina e Brasil são "neocolonialistas" e "violam deslealmente a soberania do Paraguai em Itaipu e Yacyretá", referindo-se às hidrelétricas que o país compartilha no Rio Paraná com os vizinhos.
Na Venezuela, parte dos empresários está preocupada com a invasão de produtos brasileiros, especialmente manufaturados, e reclama do superávit comercial que só faz crescer a favor do Brasil. A insubmissão de Chávez e suas críticas ao Mercosul não se justificam, portanto, apenas por sua necessidade de se projetar como líder, em uma clara disputa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
- O Mercosul não pode ser apenas um bloco que se reúne a cada seis meses. Não pode ser apenas encontros sucessivos de presidentes. Precisamos de instituições mais robustas. Montevidéu (sede do Mercosul) tem de ser como Bruxelas (sede da União Européia) - reconheceu o assessor especial da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia.
O nível de insatisfação com o Mercosul será demonstrado hoje pelos presidentes, acreditam diplomatas que participaram ontem da reunião prévia de chefes de Estado. Lula, por exemplo, destacará os avanços já obtidos, defenderá medidas para reduzir as assimetrias, mas fará um apelo para que todos se unam no combate à ineficiência, que atinge o sistema de solução de controvérsias e o planejamento e a execução de projetos de infra-estrutura e desenvolvimento.
Na cúpula de Assunção, foram aprovadas medidas para agradar aos sócios menores. Paraguaios e uruguaios foram beneficiados com a prorrogação, até 2022, dos índices de nacionalização de 40% (Paraguai) e 50% (Uruguai). Os dois sócios pediam índices menores, ou a flexibilização das regras de origem, mas enfrentaram forte resistência dos argentinos.
(*) Com agências internacionais