Título: 'Método um tanto confuso'
Autor: Batista, Henrique Gomes
Fonte: O Globo, 29/06/2007, Economia, p. 30

Um dos responsáveis por implantar o sistema de metas de inflação no país, em 1999, o ex-diretor do BC e atual diretor-executivo do Banco Itaú, Sergio Werlang, diz que a decisão do BC de buscar 4% de alta de preços indica uma continuidade.

A adoção de metas paralelas (pelo BC e pelo Conselho Monetário Nacional, o CMN) não cria confusão no mercado?

SERGIO WERLANG: É um método um tanto confuso, sem dúvida. Para atingir 4,5% de inflação, o BC teria que baixar muito os juros para acelerar a inflação. Mas o BC dará continuidade à política monetária ao mirar em 4% ao ano em 2009.

A fixação de dois alvos diferentes cabe nessa forma de controle da inflação?

WERLANG: É um uso da banda (o sistema prevê que a inflação pode ficar dois pontos percentuais para baixo ou para cima do alvo fixado) que não deveria ser contemplado num ambiente de normalidade. Lança-se mão desse artifício quando há algum choque nos preços tanto para cima quanto para baixo, como quando a cotação do dólar baixa muito. No sistema de metas, mira-se sempre o alvo, não a banda. Ele tem flexibilidade suficiente.

Quais os reflexos na economia dessa adoção de uma meta maior que as expectativas?

WERLANG: A trajetória da economia permanece a mesma. Há continuidade nas taxas de inflação e no crescimento. Mantenho minha previsão anterior de dois cortes de 0,5 ponto percentual na Taxa Selic (hoje em 12% ao ano) nas próximas reuniões do Copom (Comitê de Política Monetária do BC). As expectativas de inflação do mercado não devem ficar acima dos 4% nos quais estão ancoradas atualmente.

Essas metas paralelas não mostram uma divisão no governo?

WERLANG: Isso não é novidade. Já sabíamos disso há muito tempo. Não chega a abalar a credibilidade do sistema e do BC.

Os juros, com essa nova meta, poderão cair mais rapidamente?

WERLANG: Com a meta de 4% ou 4,5%, há condições de os juros baixarem para 10,5% até o fim deste ano e para 9,5% em 2008. Este ano, a inflação deve ficar próxima de 3,5%.

O que o governo pretendia ao adotar 4,5% de meta de inflação para 2009, com a expectativa já em torno de 4% até 2011?

WERLANG: Acredito que o Ministério da Fazenda quis evitar que a inflação ficasse abaixo de 2,5% no ano. Com a meta de 4%, a taxa poderia ficar em até 2%. É a única razão que consigo supor para o Conselho ter adotado essa meta. (Cássia Almeida)