Título: Reforma da imigração é sepultada
Autor: Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 29/06/2007, O Mundo, p. 33

Derrota de projeto de lei no Senado dos EUA é duro golpe para presidente Bush.

WASHINGTON. Depois de meses de tentativas, o Senado americano sepultou ontem a proposta de reforma da lei de imigração que poderia legalizar a situação de cerca de 12 milhões de estrangeiros ilegais. A liderança da Casa disse que não recolocará o tema em pauta até as eleições presidenciais, em novembro do ano que vem.

O projeto de lei, que fora elaborado por um grupo de senadores democratas e republicanos e pela Casa Branca, precisava de 60 votos ontem para ser levado a votação, mas foi derrotado por 53 a 46. Apenas 12 republicanos votaram a favor da medida, apesar de o presidente dos EUA, George W. Bush, ter se empenhado diretamente na questão, telefonando para vários senadores de seu partido.

¿ Muitos de nós trabalhamos duro para ver se poderíamos encontrar um consenso. Não deu certo ¿ reconheceu o presidente ontem, horas depois da derrota.

Especialistas afirmaram que a derrota do governo dentro de seu próprio partido representa um fim melancólico para a tentativa de Bush de deixar um legado para a posteridade no fim de seu segundo mandato. Com taxas de aprovação abaixo da faixa dos 30%, o presidente deixou de ter capacidade de convencer até mesmo seus correligionários.

Depois da derrota, ele tentou responsabilizar apenas o Congresso pela derrota.

¿ O Congresso falhou ao tentar agir ¿ disse Bush.

Senadores trocam acusações no plenário

No Senado, no entanto, o fator que mais colaborou para a derrota da medida foi a rejeição que o projeto sofreu dos extremos dos dois partidos. Tanto a direita do Partido Republicano quanto a esquerda do Democrata discordavam da proposta.

Nas últimas semanas, os conservadores tinham conseguido inserir algumas emendas mais restritivas à legalização da situação dos imigrantes ilegais. Porém, os democratas progressistas consideraram que as alterações haviam descaracterizado o projeto, ao mesmo tempo em que a parcela mais à direita dos republicanos não achava que as mudanças tinham sido suficientes, e que a lei significaria uma anistia.

¿ Esse debate sobre a imigração se tornou uma guerra entre o povo americano e seu governo ¿ afirmou o senador Jim DeMint, um dos líderes da resistência conservadora à proposta. ¿ Isso transcendeu o assunto imigração. Se tornou uma crise de confiança.

Senadores chegaram a trocar ataques da tribuna da Casa.

¿ Nós sabemos em relação a que eles são contrários. Só não sabemos o que eles defendem ¿ disse o senador democrata Robert Kennedy, um dos principais articuladores da proposta, que depois chegou a se virar e falar diretamente para os senadores contrários à medida. ¿ Vocês vão dar atenção às vozes do medo? É essa a questão.

Kennedy chegou a dizer que os oponentes do projeto de lei estariam imaginando a criação de ¿uma espécie de Gestapo¿ para prender imigrantes ilegais, referindo-se à polícia secreta, responsável pela perseguição de minorias na Alemanha nazista.

Em resposta, o senador republicano Jeff Sessions disse que os defensores da medida se consideravam ¿os senhores do universo¿.

A proposta criava mecanismos para que os cerca de 12 milhões de imigrantes ilegais que moram nos EUA conseguissem pleitear a legalização de sua situação, através do pagamento de multa e da obrigação de voltar a seus países de origem para pedir um visto. Porém, várias emendas foram incluídas, tornando mais difícil a legalização, e impedindo a entrada de parentes próximos de imigrantes legais nos EUA.