Título: Venezuela e o FMI
Autor: Batista Jr., Paulo Nogueira
Fonte: O Globo, 30/06/2007, Opinião, p. 7

Em maio, o presidente Hugo Chávez anunciou que a Venezuela sairia do FMI e do Banco Mundial. Até agora, entretanto, a saída não foi formalmente notificada. Há poucas semanas, Chávez explicou que ela não seria necessariamente imediata e anunciou a criação de uma comissão técnica para estudar o assunto.

O presidente da Venezuela é impulsivo, como se sabe. Mas também é muito inteligente. Criar uma comissão talvez seja a melhor forma de arquivar uma decisão que não parece convir à Venezuela, pois levaria a um certo isolamento do país.

Só oito países não são membros do FMI: Coréia do Norte, Cuba, Taiwan, Andorra, Mônaco, Liechtenstein, Nauru e Tuvalu. Cuba retirou-se do FMI em 1964. Taiwan foi membro do Fundo até 1980, mas se viu forçado a deixá-lo quando a China continental entrou, isto é, quando o governo de Pequim foi reconhecido pelo FMI como o governo da China. Os demais países - a Coréia do Norte, os três micro-Estados europeus e os dois do Pacífico - nunca foram membros do Fundo.

A Venezuela seria então o único país da América do Sul e o único latino-americano (além de Cuba) a não pertencer ao FMI. É muito pouco provável que outros países acompanhem a decisão.

A quem interessa isolar a Venezuela? Há indicações de que o governo dos EUA trabalhou nesse sentido. A decisão de abandonar o FMI e o Banco facilitaria esse trabalho.

Para o Brasil e as outras nações sul-americanas, é importante a permanência da Venezuela. Ela é uma aliada natural nas discussões sobre a reforma do FMI, que estão em pleno andamento. Ao lado de países como a Índia, a Argentina, o Brasil, a China e o Egito, ela pode lutar para aumentar a influência dos países em desenvolvimento e a representatividade do Fundo e do Banco.

A quota atual da Venezuela no FMI é relativamente grande - 1,21% dos votos, quase do tamanho da do Brasil, que é de 1,38%. Se a Venezuela sair mesmo do Fundo, poderá até pleitear a readmissão no futuro, mas voltará provavelmente com uma quota menor do que a que possui hoje, isto é, com menos votos e menos poder de levantar recursos.

Atualmente, a maioria das economias latino-americanas, a Venezuela inclusive, tem reservas adequadas e não precisa dos empréstimos do FMI. Mas como excluir a hipótese de que voltem a ocorrer crises de balanço de pagamentos? O FMI pode revelar-se novamente importante como fonte de empréstimos compensatórios.

A eventual criação de um Banco do Sul e a de um Fundo Monetário do Sul (ou a reformulação e ampliação do Fundo Latinoamericano de Reservas - Flar), que são propostas caras ao governo da Venezuela, não pressupõem nem são facilitadas pela decisão de sair do FMI e do Bird. O exemplo asiático é instrutivo. Insatisfeitos com a forma como o Fundo administrou a crise de 1997-98, os países do Leste da Ásia vêm construindo uma rede de cooperação monetária e cambial, que pode substituir em grande parte o FMI em caso de novas crises.

Mas os asiáticos não deixaram o Fundo e nem ameaçaram fazê-lo. A construção cuidadosa de mecanismos de cooperação regional aumentou o poder de barganha desses países em Washington. Os americanos e europeus sabem o que está em curso no Leste da Ásia e por isso, aliás, aceitaram incluir na agenda do FMI a rediscussão das quotas e da distribuição do poder de votação.

PAULO NOGUEIRA BATISTA JR. é economista e diretor-executivo pelo Brasil e mais oito países no Fundo Monetário Internacional. E-mail: pnbjr@attglobal.net.