Título: Roriz renuncia e foge da cassação
Autor: Franco, Ilimar e Camarotti, Gerson
Fonte: O Globo, 05/07/2007, O País, p. 3

SUCESSÃO DE ESCÂNDALOS

Acusado de corrupção, ex-senador começaria a ser investigado pelo Conselho de Ética.

Oex-governador Joaquim Roriz (PMDB-DF), aconselhado por seus aliados, renunciou ontem à noite ao mandato de senador para evitar ser julgado pelo Conselho de Ética por quebra de decoro parlamentar. Com a renúncia, ele escapa de ter o mandato cassado e os direitos políticos suspensos por oito anos. Flagrado em conversa telefônica gravada pela Polícia Civil do Distrito Federal negociando a partilha de um cheque de R$2,2 milhões do empresário Nenê Constantino, dono da Gol Linhas Aéreas e de empresas de ônibus, Roriz decidiu renunciar assim que a Mesa do Senado determinou, por unanimidade, o encaminhamento do processo contra ele para o Conselho de Ética.

Ao fim da reunião da Mesa, de manhã, Roriz mostrou a carta de renúncia a senadores, mas desistiu de formalizar seu pedido para aguardar a notificação pelo Conselho. A notificação, segundo a Secretaria Geral da Mesa do Senado, poderia ser feita ainda na noite de ontem ou a partir da manhã de hoje. Mas, antes mesmo de ele receber a comunicação do Conselho, a carta de renúncia de Roriz foi lida no plenário pelo senador Mão Santa (PMDB-PI): "Minha inocência por mim proclamada e insistentemente repetida não mereceu acolhida. O furor da imprensa, o açodamento de alguns, as conclusões maliciosamente colocadas lamentavelmente ecoaram mais alto", disse ele na carta.

Ao longo do dia, Roriz e aliados discutiram qual seria a melhor estratégia para o grupo político do ex-governador do Distrito Federal. Foi considerada a renúncia coletiva, de Roriz e dos dois suplentes de sua chapa, mas essa hipótese foi descartada.

- O senador está determinado e convicto de sua inocência, mas não subestima o momento político adverso. A hipótese da renúncia coletiva está afastada, não é a melhor estratégia - disse o deputado Tadeu Filippelli (PMDB-DF).

Suplente deve assumir vaga

O primeiro suplente de Roriz, Gim Argello (PTB), que também estaria envolvido em irregularidades na venda de um terreno para o governo do Distrito Federal pelo empresário do ramo imobiliário Wigberto Tartucce, deve assumir o mandato no Senado, estimulado pelo próprio Roriz. Com planos de eventual renúncia, no futuro.

O primeiro vice-presidente do Senado, Tião Viana (PT-AC), revelou que os aliados de Roriz trabalham com a hipótese da renúncia de Argello e do segundo suplente, o ex-presidente da Caesb Marcos de Almeida Castro, caso o ex-governador não seja indiciado pelo Ministério Público ou seja inocentado pelo STF. Nesse contexto, avaliam seus aliados, Roriz teria condições de recuperar o mandato, apresentando-se aos eleitores como vítima de injustiça. Essa estratégia envolve risco, pois Argello teria sido orientado pelo presidente do PTB, Roberto Jefferson, a não abrir mão do mandato.

- O senador nos comunicou que renunciaria ao mandato, caso a Mesa decidisse enviar de imediato a representação ao Conselho de Ética - afirmou, no início da tarde, o líder do PMDB, senador Valdir Raupp (RO).

A Mesa do Senado levou três horas para decidir sobre a representação do PSOL contra Roriz. Para constrangimento da maioria, Roriz foi à reunião, defendeu-se novamente e reapresentou documentos.

Insistindo na tese de que se tratava de uma negociação na esfera privada, Roriz apresentou novo documento da Polícia Civil de Brasília - onde ainda exerce influência, depois de quatro mandatos como governador. O documento atesta que as gravações de conversa telefônica entre Roriz e o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Tarcísio Franklin de Moura "não têm ligação com o caso que estamos (a polícia) investigando (Operação Aquarela)" - que desmontou um esquema de fraudes no banco.

Baseado nisso, Roriz pediu à Mesa um prazo para enviar a representação ao Conselho de Ética, pois se isso fosse decidido, ele teria de renunciar:

- Peço um prazo de 90 dias para que a Procuradoria e o STF tomem uma decisão. Se o caso for para o Conselho hoje, vou renunciar. Estou convencido de que serei inocentado pelo Ministério Público e pela Justiça.

- Se você está tão convicto, responda ao processo no Conselho, como eu fiz e o Renan está fazendo. Não renuncie - disse o quarto-secretário da Mesa, Magno Malta (PR-ES).

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), foi o primeiro a se manifestar. Disse que não se poderia conceder esse prazo, porque equivaleria a dar um prazo para que o Ministério Público e o STF se manifestassem sobre o seu caso. Consultado, o advogado-geral do Senado, Alberto Cascaes, informou que a Mesa não analisava o mérito da representação, mas apenas se preenchia os requisitos formais para sua admissibilidade.

Abatido, Roriz foi para o gabinete do presidente do Senado com a carta de renúncia na mão. Saiu pela porta dos fundos, onde fotógrafos e cinegrafistas o aguardavam. Para se desvencilhar deles, refugiou-se no gabinete de Antonio Carlos Magalhães (DEM-BA), que estava ausente.