Título: Lula sobre ultimato de Chávez: 'Se não quiser ficar, não fica'
Autor: Berlinck, Deborah
Fonte: O Globo, 05/07/2007, Economia, p. 28

Presidente brasileiro diz que entrada no Mercosul exige aprovação dos sócios, mas saída não tem regras. Brasil, sugere ele, pode fazer concessões para fechar acordo na OMC

LISBOA. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu uma resposta direta ao ultimato do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que ameaçou desistir de entrar no Mercosul se os Congressos do Brasil e Paraguai não ratificarem a adesão de seu país ao bloco em três meses. Participando, em Portugal, da Cimeira Empresarial Brasil-União Européia (UE), Lula disse:

- Obviamente, para entrar tem que ter a aceitação dos quatro membros do Mercosul. Agora, para sair, não tem regra. Se não quiser ficar, não fica.

O tom da resposta do presidente foi amaciado com declarações de amizade ao "companheiro" venezuelano:

- Temos uma boa relação. Fui eu, em Mar del Plata, que propus aos companheiros do Mercosul a entrada do companheiro Chávez - disse Lula.

A UE e o Mercosul já estão tendo dificuldades para negociar uma associação e, acredita-se, que elas possam aumentar com a entrada no bloco de um governo criticado na Europa como pouco democrático.

- Compete aos países da América Latina, e não a nós, decidir se Venezuela ingressa ou não no Mercosul - disse o presidente da Comissão Européia, Durão Barroso, para, em seguida, fazer críticas abertas à Chávez, referindo-se à decisão de não renovar a concessão da rede de televisão RCTV, de oposição ao governo. - Quero que fique bem clara nossa posição. Defendemos, em relação a qualquer parte do mundo, seja na América Latina, seja na Europa, seja na África, a liberdade de expressão. Sempre que há uma redução do pluralismo na expressão da opinião pública, temos o direito, temos o dever, de manifestar a nossa posição.

Em entrevista à BBC Brasil, em Lisboa, a comissária européia das Relações Exteriores, Benita Ferrero-Waldner, que também se encontrou com o presidente Lula, disse que o governo da Venezuela abusou "das bases legais" do país ao não renovar a concessão da RCTV.

As negociações entre UE e Mercosul estão paralisadas desde novembro do ano passado, mas Bruxelas prefere primeiro um desfecho das negociações multilaterais da Rodada de Doha - como são chamadas as discussões internacionais para a abertura do comércio mundial - antes de uma negociação com o Mercosul.

Lula apelou ontem a Deus para que os 151 países-membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) cheguem a um acordo na Rodada de Doha. Ele revelou que o Brasil tem uma "carta" escondida no bolso, como todos os outros: ou seja, está preparado para fazer novas concessões e tirar essa carta, desde que os outros façam o mesmo.

A Rodada de Doha está por um fio, ameaçada de colapso total, depois que Brasil e Índia bateram de frente contra os dois líderes do comércio mundial - Estados Unidos e UE - acusando-os de estarem exigindo muito dos países em desenvolvimento. Para o presidente, sem esse acordo, todos, inclusive o Brasil, vão perder.

- Que Deus nos ajude a fazer um acordo - apelou o presidente, diante de uma platéia de empresários.

Na segunda-feira, em São Bernardo do Campo, o presidente atribuiu o fracasso da reunião na Alemanha, entre Brasil, Índia, Estados Unidos e UE aos dois últimos, sobretudo os europeus, que, segundo Lula, tinham uma "carta no bolso" e não apresentaram.

Ontem, em Lisboa, o comissário europeu de Comércio, Peter Mandelson, numa conversa com repórteres brasileiros, disse que a proposta agrícola européia tinha sido relatada de cabeça para baixo para o presidente, numa alusão ao ministro Celso Amorim. Mais tarde, quando ouviu o discurso de Lula, Mandelson disse que agora tinha "entendido" e que vira o presidente "comprometido" com a rodada.

Mandelson afirmou ainda que o esforço esperado do Brasil é que aceite fazer corte de 50% das tarifas de importação de produtos industriais e de consumo aplicadas no país. Na prática, segundo ele, haveria corte de cinco pontos percentuais nas alíquotas em vigor.

Para a Fiesp e a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o que Mandelson pede agora pode significar corte ligeiramente menor do que a UE havia exigido do Brasil na Alemanha.

- O problema não está na área industrial, está na agricultura - afirmou Carlos Cavalcanti, diretor da Fiesp.

Durante o encontro de ontem, a UE convidou o Brasil a entrar para um pequeno grupo de parceiros estratégicos, que já reúne China, Rússia e Índia. O objetivo da parceria é aumentar a cooperação entre a UE e o Brasil em áreas como comércio, energia renovável e combate à pobreza.