Título: O novo foguete brasileiro
Autor: Jansen, Roberta
Fonte: O Globo, 05/07/2007, Ciência, p. 32

País lança na próxima quarta cápsula para experiências em microgravidade.

Está tudo praticamente pronto na Base de Alcântara, no Maranhão, para o lançamento do foguete brasileiro de pesquisas VSB-30 na próxima quarta-feira. O objetivo imediato da missão é fazer experiências em microgravidade. Mas, a longo prazo, trata-se de um passo importante rumo ao domínio da tecnologia necessária à autonomia do país na estratégica área de lançamento de satélites - que sofreu um forte abalo há quatro anos com a explosão do Veículo Lançador de Satélites (VLS) e a morte de 21 pessoas.

- O programa do VSB-30 tem a importante função de lançar experiências científicas, mas está alinhado também com o desenvolvimento tecnológico para chegarmos no mais importante, que é o lançamento de satélites - afirma o tenente-coronel Fausto Ivan Barbosa, do Centro Tecnológico da Aeronáutica (CTA), coordenador-geral da operação de lançamento. - Além disso, o programa tem outra função importante que é manter os centros de lançamento (em Alcântara e Natal) em operação, manter a capacitação do pessoal.

A previsão é que o foguete seja lançado na quarta-feira entre 9h e 14h, mas tudo dependerá das condições do tempo, sobretudo dos ventos. Na pior das hipóteses, o lançamento pode ser transferido para o dia seguinte. A missão Cumã II (uma referência à uma região próxima da base) levará ao espaço nove experiências científicas, todas elas integradas ao programa brasileiro de microgravidade.

Efeitos da radiação em DNA humano

As experiências em microgravidade são fundamentais para as mais diferentes áreas de pesquisa: da produção de alimentos, passando pela indústria farmacêutica, até a genética. Cientistas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) tentarão entender, por exemplo, como o DNA se comporta em microgravidade. Especialistas acreditam que o número de lesões genéticas, que podem dar origens a mutações, são maiores no espaço em função da radiação. Esses estudos têm um papel fundamental na compreensão do que ocorre no organismo humano fora da Terra.

Já a experiência da Universidade Federal de Pernambuco está ligada à área de nanotecnologia. O objetivo, como apontam os cientistas, é "utilizar nanotecnologia na avaliação dos efeitos da gravidade na preparação de novos materiais". Outras experiências têm por objetivo testar equipamentos que podem ser usados pelos próprios foguetes de pesquisa, caso da proposta da Universidade Estadual de Londrina e da pesquisa do Instituto de Estudos Avançados e Instituto de Aeronáutica e Espaço. Também nessa linha segue a pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina, que desenvolve tecnologia nacional para o controle da temperatura a bordo de satélites.

O foguete a ser lançado na próxima semana é o quarto da série VSB-30. O primeiro foi lançado da própria Base de Alcântara em 2004 - um ano após a explosão do VLS - como parte do programa espacial brasileiro. O segundo e o terceiro foram lançados em 2005 e 2006 da Suécia. Eram encomendas feitas ao Brasil pela Agência Espacial Européia.

- O programa nunca parou, não houve estagnação - defende Barbosa. - Os foguetes foram produzidos e lançados daqui mesmo e do exterior. Tivemos um lançamento por ano.

Os foguetes desse programa alcançam 280 quilômetros de altura e ficam por aproximadamente seis minutos em ambiente de microgravidade antes de retornarem. O veículo está orçado em 900 mil.

As diferenças entre os modelos

O VSB-30 (Veículo de Sondagem Brasileiro) e o VLS (Veículo Lançador de Satélite) são dois foguetes completamente diferentes. O VSB-30 é um veículo suborbital muito mais simples, cuja tecnologia o Brasil domina completamente. O país já forneceu foguetes do tipo VSB-30 para a Agência Espacial Européia inclusive.

O objetivo desse foguete é transportar cargas úteis científicas e tecnológicas, de até 400 quilos, para experiências em ambiente de microgravidade e até 270 quilômetros de altura por cerca de seis minutos. O VSB-30 conta com dois estágios propulsores (motores), movidos a combustível sólido.

O VLS é um veículo de tecnologia bem mais complexa, destinado a colocar satélites em órbita. O Brasil ainda não domina essa tecnologia, considerada estratégica para um país das dimensões do Brasil e que depende de dados de satélite para as mais diversas atividades - inclusive econômicas e de segurança.

Com quatro estágios, o VLS é muito maior (20 metros) que o VSB-30 (12,6 metros) e muito mais pesado (50 toneladas contra 2,6 toneladas). A única semelhança entre os dois é a tecnologia de propulsão, a base de combustível sólido.

A previsão para o lançamento do primeiro teste do VLS é 2011. Antes disso, o programa cumpre duas etapas. Uma maquete em tamanho real será montada para testar as redes elétricas do foguete na base em 2009. A principal suspeita é de que foi um problema na rede elétrica do VLS que provocou a explosão do veículo em 2003.

Um VLS com apenas dois de seus quatro estágios em funcionamento será testado em 2010. Finalmente, um VLS completo será lançado em 2011, mas, mesmo assim, a título de teste, sem levar satélite a bordo.

Inclui quadro:O projeto