Título: Governo tentará enfrentar gargalos em SP
Autor: D'Ercole, Ronaldo e Doca, Geralda
Fonte: O Globo, 06/07/2007, Economia, p. 21
Ações em estudo contemplam reformulação da malha e compra de máquinas, entre outras.
BRASÍLIA. Os gargalos na infra-estrutura aeroportuária do estado de São Paulo - especialmente em Congonhas e Guarulhos, importantes centros de distribuição de vôos - são os focos do governo na elaboração de medidas que possam atenuar ou eliminar o caos instalado no tráfego aéreo nacional. São pelo menos seis as ações em avaliação, desde o deslocamento do transporte de carga até a restrição de uso das pistas e pátios pela aviação executiva. O ponto mais polêmico, que racha o governo, é a reformulação da malha aérea (que tem hoje trechos muito interdependentes, com alta utilização de uma mesma aeronave).
Uma das medidas emergenciais sugeridas pelo Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) para enfrentar o problema em Congonhas - que está saturado em termos de pista e pátio - é o uso das áreas reservadas aos ministros e ao presidente da República. A idéia é ganhar mais espaço para que o órgão de controle possa autorizar o pouso de um vôo até que outro avião, por exemplo em atraso, libere o pátio.
Outra medida necessária será a transferência, ainda que temporária, das áreas ociosas de check-in em poder da Varig para Gol e TAM. Em Guarulhos, todo o Terminal 2 está em poder da Varig, que tem 2% do mercado doméstico.
Também está em discussão a instalação de um equipamento para pouso sem qualquer visibilidade para Guarulhos, o Instrument Landing System (ILS) categoria 3, evitando o fechamento devido a densos nevoeiros. A máquina custa US$7 milhões. As empresas aéreas são favoráveis à ação.
No caso de Congonhas, a avaliação da Aeronáutica é que uma solução imediata passa por uma reorganização da malha e pela redução no número de vôos. O aeroporto opera no limite, com cerca de seis mil passageiros por hora. O movimento de aeronaves também ocupa toda a capacidade instalada. São entre 44 e 46 aeronaves em movimento a cada 60 minutos. Segundo a avaliação de um oficial, o ideal seria reduzir em pelo menos 10% o número de aeronaves.
Assim, quando o aeroporto precisasse fechar por problemas climáticos, os vôos poderiam ser redistribuídos em horários próximos, sem comprometer o fluxo do dia. Mas essa é uma decisão da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que ainda não concorda com a alteração da malha. Ministro reage a críticas sobre omissão e convoca reunião
Nos bastidores, há uma percepção de que a agência não está imune às pressões das empresas, que resistem a mudanças na malha com redução do número de vôos, preocupadas com a rentabilidade. As empresas alegam que qualquer redução implicará perdas para os usuários, mas a Aeronáutica considera que o desgaste maior é mesmo a ocorrência de atrasos.
Outra proposta em estudo para desafogar Congonhas é a transferência dos vôos executivos (particulares) para o Campo de Marte, além de repassar parte dos vôos comerciais para Guarulhos. Para aliviar o tráfego do terminal internacional, parte da carga seria levada para Campinas (Viracopos) e Ribeiro Preto.
O ministro da Defesa, Waldir Pires, reagiu ontem às críticas de omissão na crise aérea e convocou uma reunião de emergência. O objetivo foi buscar a articulação entre Infraero, Decea e Anac. Mas, após três horas, o tema mais importante, a redistribuição de vôos em horário de pico, continuou em impasse. Segundo uma fonte, Pires cobrou da Anac uma ação para desconcentrar a malha, mas o presidente da agência, Milton Zuanazzi, teria sido intransigente, apesar da posição favorável de Infraero e Aeronáutica.
- Zuanazzi não aceita reduzir vôos nem ajustar a malha. Argumenta que a medida vai impactar o custo das companhias - afirmou uma fonte.
Segundo essa fonte, foram tomadas algumas decisões que terão pouco efeito, como a determinação para que a Infraero retire dos pátios dos aeroportos de São Paulo e Brasília os aviões velhos de Transbrasil e Vasp. Nota divulgada à noite afirma que serão aproveitadas "áreas em desuso operacional nos aeroportos, ocupadas atualmente como depósitos, para colocá-las a serviço do transporte aéreo". Diz ainda que Infraero, Anac e empresas enviarão representantes ao Centro de Gerenciamento da Navegação Aérea (CGNEA), órgão que fica no Rio. O objetivo é harmonizar as informações sobre o tráfego aéreo.