Título: PF mantém acusações a Silas
Autor: Carvalho, Jailton de
Fonte: O Globo, 07/07/2007, O País, p. 3

SUCESSÃO DE ESCÂNDALOS

PMDB faz lobby pela volta do ex-ministro, mas investigações complicaram situação dele.

Omovimento do PMDB e de alguns setores do governo para reconduzir o ex-ministro de Minas e Energia Silas Rondeau ao cargo pode esbarrar no relatório final da Polícia Federal sobre a Operação Navalha. Entre os papéis anexados ao documento, estão páginas da agenda do empreiteiro Zuleido Veras, dono da Gautama e chefe do suposto esquema de fraudes investigado na Navalha. No dia 13 de março deste ano, consta da lista de compromissos de Zuleido a anotação "Falar c/ o ministro Silas", escrita de próprio punho pelo empresário. Naquele mesmo dia, a PF sustenta, no relatório, que emissários de Zuleido entregaram R$100 mil ao ministro em seu gabinete, na sede do ministério.

No dia 13 de março, agentes da Divisão de Contra-Inteligência da Polícia Federal flagraram Maria de Fátima Palmeira, uma das principais funcionárias da área financeira da Gautama, entrando na ante-sala do gabinete do então ministro das Minas e Energia com um envelope branco e uma bolsa preta, onde, segundo os investigadores, estaria a propina. Ela teria repassado o dinheiro a Ivo Almeida Costa, ex-assessor especial de Silas, que, por sua vez, teria entregado o dinheiro ao ex-ministro, segundo a PF.

Ao STJ, Silas negou suposto encontro

Para a polícia, as informações da agenda reforçam os supostos vínculos entre Zuleido e Silas. Em depoimento à ministra Eliana Calmon, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), no dia 30 de maio, Silas disse que conhecia Zuleido, mas afirmou que não havia registro de encontro com o empresário em seu gabinete. As primeiras acusações contra o então ministro Silas Rondeau foram formuladas no primeiro relatório da Operação Navalha, base da prisão de Zuleido e de mais 47 empresários, políticos e servidores públicos acusados de envolvimento em desvios de dinheiro público.

O documento acusa Silas de receber o dinheiro: "Apurou-se, ainda, que no dia 13/03/07, na cidade de Brasília, Silas Rondeau recebeu, por meio de Ivo Almeida Costa (assessor especial do ministério), a quantia de R$100.000, entregues por Maria de Fátima", diz a PF num trecho do primeiro relatório preliminar enviado à ministra Eliana Calmon.

Depois da divulgação do conteúdo do documento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu demitir Silas. O ministro disse à época que era inocente, e, desde então, iniciou um movimento político para voltar ao cargo com o apoio do seu padrinho político, o senador José Sarney (PMDB-AP).

O movimento cresceu nos últimos dias, depois da divulgação de um laudo, produzido na Unicamp, com a informação de que Maria de Fátima não teria condições de carregar R$100 mil num envelope quando esteve no gabinete de Silas. A PF sustenta, no entanto, que o dinheiro foi levado por ela na bolsa. Com base no laudo, assinado pelo perito Ricardo Molina, líderes do PMDB espalharam no Congresso a versão de que a Polícia Federal não obtivera novos indícios contra o ex-ministro e que, por isso, Silas voltaria ao ministério.

Para os pemedebistas, o relatório preliminar da PF não apresenta provas conclusivas de que Silas, de fato, recebera dinheiro de Zuleido. Até o ministro da Justiça, Tarso Genro, saiu em defesa do ex-colega de governo.

- Examinei as peças depois que o processo se tornou público, e não vi, até agora, nenhum delito que pudesse ser imputado ou provado contra o ministro Silas Rondeau - disse Tarso, na terça-feira passada.

No embalo do movimento pró-Silas surgiu a informação de que a própria PF produzira novo relatório para livrar o ex-ministro das acusações. A PF desmentiu a versão. A polícia sustenta que o relatório final é ainda mais contundente contra Silas. Segundo uma das autoridades que acompanham de perto a investigação, os documentos apreendidos na Gautama e os depoimentos prestados pelos acusados à ministra Eliana Calmon complicaram a situação do ex-ministro.

Um desses documentos seria a agenda em que Zuleido faz o lembrete para procurar o ministro. Na mesma página da agenda, Zuleido demonstra segurança de que a Gautama ou qualquer uma de suas outras empresas venceria obras incluídas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). "Ver nossos projetos do PAC", "aprovação do PAC", "recursos do PAC", dizem algumas das anotações de Zuleido.

Mares Guia sonda Silas sobre volta

O empreiteiro menciona uma conversa que teria com o lobista Sérgio Sá, também no dia 13. O lobista estava no ministério quando Fátima teria entregado o dinheiro de Zuleido a Ivo Costa.

Fontes do Palácio do Planalto confirmaram que o ministro das Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guia, teve um encontro, na última quarta-feira, com Silas para sondá-lo sobre sua volta ao governo. Mares Guia agiu por orientação do presidente Lula, que acredita na inocência do ex-ministro e o quer novamente no comando do Ministério de Minas e Energia. Mares Guia, que ontem se reuniu com Lula, fez uma sondagem sobre a disposição de Silas de voltar para a Esplanada dos Ministérios.

COLABOROU: Luiza Damé