Título: Governo vai oferecer 5,5% aos aeroportuários
Autor: Doca, Geralda
Fonte: O Globo, 07/07/2007, Economia, p. 35
Funcionários da Infraero ameaçam greve às vésperas do Pan e pedem 33,25%. Aeronáutica afasta seis controladores.
BRASÍLIA. Para tentar evitar uma paralisação dos funcionários da Infraero às vésperas dos Jogos Pan-Americanos, o governo vai propor reajuste salarial de 5,5% aos aeroportuários, numa reunião entre a Infraero e o comando de greve marcada para hoje em Brasília. Ao mesmo tempo, o Comando da Aeronáutica está empenhado em abafar um novo foco de insurgência de controladores de vôo e decidiu afastar mais seis profissionais militares do Cindacta 4 (Manaus), suspeitos de articular uma operação-padrão.
Na negociação com os aeroportuários que ameaçam fazer greve, a proposta inicial do governo era um reajuste de 3% que, depois, foi elevada para 4%. Os aeroportuários, por sua vez, pedem aumento de 33,25%. A nova oferta do governo, de 5,5%, foi definida ontem num encontro entre o ministro da Defesa, Waldir Pires, e representantes da estatal e do Ministério do Planejamento. Como contrapartida, os funcionários terão que cumprir metas mensais de produtividade para compensar a elevação das despesas decorrente do aumento.
Se houver impasse, governo pode subir proposta para 6%
A tendência é que as negociações se estendam durante o fim de semana, mas Pires deu prazo até a segunda-feira para que a Infraero e os grevistas fechem um acordo. Havendo impasse, contou uma fonte, o governo poderá ceder e pagar os 6% - percentual que a Infraero afirma ter condições de cobrir.
Nem a Infraero nem a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) acreditam, porém, que os funcionários vão mesmo cruzar os braços, segundo fontes do governo. O que está havendo é um "jogo de pressão", afirmou um técnico. O reajuste beneficiará 10.600 funcionários da Infraero e terá impacto de R$28 milhões, caso o governo aceite pagar os 6%.
O Comando da Aeronáutica, por sua vez, endureceu com os controladores. Além de afastar mais seis profissionais do Cindacta 4, a Força estaria negando os pedidos de engajamento (feito aos cinco, sete e nove anos, quando o militar ganha estabilidade definitiva) a todos os sargentos que participaram ativamente das paralisações. A denúncia foi feita por controladores e confirmada por um oficial ao GLOBO.
Os sargentos afastados do centro de controle de Manaus foram transferidos para localidades distantes - Porto Velho, Rio Branco, Belém e Base Aérea de Manaus - "porque representavam um potencial de perigo", segundo uma fonte. Novas punições não estão descartadas. Outro sargento, de Salvador, também teria sido afastado das operações. E um militar do controle local já havia sido punido. Isso sem contar os 14 líderes afastados do Cindacta 1 (Brasília) e transferidos para o Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (Comdabra).
Aeronáutica endurece, mas controladores podem parar
Mesmo afastados, porém, os líderes do movimento continuam se articulando. O próximo passo será fazer chegar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva documentos que comprovariam as deficiências do sistema e das condições de trabalho dos profissionais. A correspondência deverá ser protocolada no Palácio do Planalto em 15 dias.
O presidente da Associação Brasileira dos Controladores de Tráfego Aéreo (ABCTA), Wellington Rodrigues - que começou a cumprir prisão administrativa de 10 dias a partir de ontem - pediu aos colegas, em e-mail divulgado numa comunidade na internet, que continuem trabalhando, para evitar que todos os controladores sejam culpados pelos apagões. O militar foi preso por ter criticado o sistema de tráfego aéreo, em vídeo divulgado num encontro de controladores, em Brasília. Outros dois dirigentes da Federação Brasileira das Associações de Controle de Vôo (Febracta) também foram presos.
Segundo um controlador, diante do endurecimento da FAB, a categoria optou pelo silêncio como estratégia, mas uma nova paralisação parece inevitável. A situação é mais complicada em Manaus, onde alguns controladores se recusaram a cumprir ordens, e a Aeronáutica teve de enviar para o local oficiais superiores (tenentes-coronéis) para supervisionar a sala de controle.
Uma paralisação em Manaus deixaria no chão várias aeronaves estrangeiras. Os cerca de 15 sargentos de defesa aérea não teriam condições de assumir o tráfego monitorado por quase 150 controladores. Em Brasília, apesar da aparente calmaria, "a panela de pressão está fervendo", contou um militar. E o clima poderá se acirrar na próxima semana, quando a sala de controle passará a ser supervisionada por oficiais.