Título: Há uma chance no horizonte
Autor: Rimon, Tzipora
Fonte: O Globo, 08/07/2007, Opinião, p. 7

Marcamos nestes dias em Israel um ano de seqüestro do soldado israelense Gilad Shalit em Gaza. Presenciamos vários acontecimentos desde o dia 25 de junho de 2006, tanto na Faixa de Gaza quanto no Líbano, após o seqüestro de mais dois soldados: Eldad Regev e Ehud Goldwasser. Israel continua a buscar meios para acabar com o terrorismo e dialogar com o novo governo palestino de emergência, e com seu presidente, Mahmoud Abbas, como mostrou a cúpula no último 25 de junho, em Sharm el-Sheik, com a participação do presidente do Egito, Hosni Mubarak, do primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, do rei Abdalla da Jordânia e do presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas.

O primeiro-ministro Ehud Olmert declarou: "Nestes tempos de tumulto, eu também vejo uma chance. Uma oportunidade surgiu para avançar genuinamente no processo diplomático regional. Não pretendo deixar passar esta oportunidade." Ele conclamou os Estados árabes a negociarem a iniciativa de paz árabe, reafirmada pela Liga Árabe neste ano. E completou: "Vamos falar sobre isso. Dê ao povo israelense e palestino seu apoio e auxílio."

Entretanto, o Oriente Médio continua a enfrentar a instabilidade e as ameaças por parte de grupos como o Hamas, que ocupou violentamente a Faixa de Gaza, e o Hezbollah, que tenta ganhar poder no Líbano, além de outros exemplos. Todos têm um denominador comum: o Irã. Atualmente, o Irã apadrinha grupos islâmicos radicais no Afeganistão, no Iraque, no Líbano e entre os palestinos, como também em outros países. Seus dois dependentes principais são o Hezbollah no Líbano e o grupo palestino Hamas.

Não se sugere que estas organizações sejam totalmente controladas por Teerã, e tenham todos os seus passos ditados por seu governo. No entanto o Irã financia amplamente esses grupos, fornece armas e treinamento, encoraja-os a lançarem ataques e molda sua ideologia. Sem o apoio do Irã, eles não teriam tanto poder.

Há evidência que indica que o Irã está estimulando-os a serem mais agressivos e efetuarem ataques terroristas além de ataques mais amplos.

Tome o Líbano por exemplo. O Hezbollah, o grande grupo islâmico xiita, segue de perto a linha do Irã. O líder da organização, Hassan Nasrallah, é também o representante oficial no Líbano do "guia espiritual" iraniano ou líder supremo - o mais alto oficial do Irã. Em 2006, ele atacou Israel levando a uma guerra de grandes proporções, passos que nunca ousaria tomar a não ser que a liderança do Hezbollah soubesse que o Irã queria tais ações.

Desde o final da guerra do verão de 2006, a ênfase do Hezbollah é obter o controle total do Líbano, enquanto simultaneamente ele reconstrói seu poderio militar. Em várias ocasiões o Irã foi pego contrabandeando armas para o Hezbollah, através da Síria.

A mesma tática é empregada com os palestinos. O Hamas e até o grupo mais extremista, a Jihad Islâmica palestina, seguem a linha do Irã. Teerã impeliu publicamente estas organizações a executarem ataques terroristas e, além de treinamento e armas, fornece exemplos de retórica abertamente anti-semita em sua propaganda.

Em junho ocorreu uma reviravolta na história palestina. O Hamas obteve controle da Faixa de Gaza, expulsou o Fatah, seu rival nacionalista, executou muitas pessoas por causa de seus pontos de vista políticos e atividades e deixou claro suas intenções de transformar a Faixa de Gaza e o resto dos territórios palestinos em um Estado islâmico, basicamente seguindo o exemplo do Irã.

Muitos palestinos e outros árabes publicamente demonstram seu receio e ressentimento com a idéia de que o Hamas representava um esforço iraniano de obter controle de sua terra e causa. No dia 20 de junho, Yasser Abed Rabbo, membro-sênior do comitê-executivo da OLP (Organização para a Libertação da Palestina), disse em uma declaração de imprensa que "o Irã ajudou o Hamas a dar um golpe militar contra a liderança palestina legítima e controlar a Faixa de Gaza". "O Irã apóia os poderes hostis no Iraque, no Líbano e nos territórios palestinos a fim de servir a seus interesses regionais às custas dos povos e nações da região", declarou Abed Rabbo. O co-fundador do Hamas e ex-ministro das Relações Exteriores Mahmud al-Zahar declarou ao "Der Spiegel", em 22 de junho: "Certa vez eu pessoalmente levei US$20 milhões do Irã para a Faixa de Gaza em uma mala. Não, na realidade, foram duas vezes - na segunda vez foram US$22 milhões."

Que não haja erros - este é apenas o começo. Há no horizonte o arsenal nuclear do Irã. Se Teerã conseguir esta arma de destruição em massa reunirá números maiores de forças radicais e terroristas no ataque ao ocidente e contra árabes mais moderados, como também Israel. Escondendo-se atrás de seu guarda- chuva nuclear, o Irã e seus aliados estarão também abertamente engajados em ataques aos interesses ocidentais, sem medo de retaliação. Finalmente, se o Irã obtiver o controle, bloqueará qualquer chance de paz e empurrará a região em direção a décadas de mais derramamento de sangue.

TZIPORA RIMON é embaixadora de Israel no Brasil.