Título: Venezuela impede visita de missão da OEA
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Fonte: O Globo, 13/07/2007, O Mundo, p. 33

Governo Chávez quer evitar produção de um informe, a pedido dos EUA, sobre o fim da concessão da RCTV.

CARACAS e BRASÍLIA. O governo venezuelano negou ontem permissão para que uma missão da Organização dos Estados Americanos (OEA) visite o país, a pedido dos Estados Unidos, para a elaboração de um informe sobre a não renovação da concessão pública da RCTV. O pedido foi negado por Caracas devido ao fato de ser "totalmente inaceitável".

Diplomatas americanos na OEA solicitaram no dia 19 de junho que o secretário-geral da entidade, José Miguel Insulza, pedisse autorização ao governo venezuelano para o envio de uma missão ao país para a produção do informe.

- Essa é mais uma demonstração de intervenção do governo americano na OEA. Para nós, a soberania é sagrada - disse o embaixador da Venezuela na OEA, Jorge Valero.

De acordo com a carta da OEA, os Estados membros têm a prerrogativa de negar pedidos de envio de missões, caso achem necessário.

- É um instrumento legal, que foi usado pela Venezuela dentro das normas previstas. Por isso, não temos motivos para contestar a recusa - disse José Miguel Insulza, tentando minimizar a decisão.

O secretário-geral disse ainda que não vê na Venezuela indícios de que o Estado democrático esteja ameaçado:

- Não há neste momento uma ruptura democrática na Venezuela e todos os direitos estão plenamente vigentes.

Nicholas Burns diz que Venezuela não é democrática

Ontem, os Estados Unidos voltaram a atacar o presidente venezuelano, Hugo Chávez, desta vez durante um seminário sobre inovação tecnológica em Brasília. Ao fazer uma palestra para empresários brasileiros e americanos, o subsecretário para Assuntos Políticos do Departamento de Estado dos EUA, Nicholas Burns, incluiu a Venezuela, ao lado de Cuba, entre as "exceções" à democracia na América do Sul.

- Devemos defender a democracia porque, além da Europa, não há outra parte do mundo que respeite tanto esse caminho do que a América Latina, com exceção de Cuba e do governo da Venezuela - afirmou.

Também alto funcionário dos EUA, o secretário de Estado adjunto para Assuntos do Hemisfério Ocidental, Thomas Shannon, foi outro que fustigou o governo Chávez dizendo que, apesar de eleito pelo povo, não é considerado democrático pela administração Bush. Para Shannon, a democracia não deve ser entendida como algo político e "pelo que está no papel", e sim em termos de cidadania.

- As vozes precisam ser ouvidas nacionalmente. Falamos de cidadania e dignidade humana - afirmou.

Mais cedo, em conversa com um grupo de jornalistas brasileiros, Shannon e Burns já haviam criticado Chávez. Ambos colocaram o presidente da Venezuela num plano secundário na região em termos de liderança.

- O presidente Lula é um líder na América Latina, assim como a presidente do Chile, Michelle Bachelet. Você pode nomear outros dez líderes, mas nunca incluir Chávez nessa categoria - disparou Shannon.

O governo venezuelano não renovou em maio a concessão da emissora RCTV, mergulhando o país numa polêmica internacional e numa onda de protestos. Parte dos equipamentos de transmissão foi confiscada e no lugar da emissora foi colocada no ar uma TV estatal.

Colaborou: Eliane Oliveira