Título: Lançamento na sexta-feira 13
Autor: Franco, Bernardo Mello
Fonte: O Globo, 12/07/2007, Ciência, p. 30
Decolagem do foguete brasileiro de sondagem é adiada pela segunda vez em dois dias.
Adiada pela segunda vez em dois dias, a decolagem do foguete de sondagem VSB-30, no Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão, agora está prevista para amanhã, sexta-feira 13. Desta vez, a culpa foi do mau tempo. Uma chuva fina pela manhã interrompeu o que deveria ser a última simulação da Operação Cumã II, que testará nove experiências cientificas brasileiras em ambiente de microgravidade. Um novo ensaio foi marcado para hoje, a partir das 5h.
Apesar do discurso oficial de que a programação está mantida, a decisão frustrou parte dos 300 engenheiros civis e militares envolvidos no projeto. Originalmente planejado para ontem, o lançamento já havia sido adiado por um dia, em razão de problemas técnicos. Ao comunicar o novo adiamento, os oficiais responsáveis pela Cumã II disseram que agenda original ainda não caiu por terra.
-De certa forma, estamos mantendo nosso cronograma, já que prevíamos o lançamento entre os dias 11 e 17. É uma situação normal, acontece em todos os países ¿ disse o diretor do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), tenente-coronel Olympio Achilles.
Otimismo reina entre os militares
Embora manifestem otimismo, os comandantes da operação já admitem que a decolagem pode ser postergada novamente para semana que vem, caso continue a chover. De acordo com eles, a previsão do tempo na região só é confiável no prazo de 24 horas. Se o foguete não for lançado até a data-limite, os militares esperam contar com mais dois dias de tolerância.
Assim como as nuvens que escurecem o céu do litoral maranhense desde terça-feira, a coincidência da nova data de lançamento com o dia do azar parece não preocupar o diretor do IAE.
-Gosto do dia 13 e gosto de sexta-feira. Então também gosto de sexta-feira 13 ¿ gracejou o militar, líder de uma equipe de 80 técnicos que viajou de São José dos Campos, no interior paulista, para participar do lançamento.
Formados à sombra da hierarquia e do materialismo das ciências exatas, os militares não costumam ser supersticiosos, explicou o tenente-coronel. Mais cedo, o coordenador-geral da operação, tenente-coronel Fausto Ivan Barbosa, brincou dizendo que Deus é brasileiro e nasceu em Alcântara. Por via das dúvidas, os oficiais devem rezar e cruzar os dedos à espera do lançamento.
Uma nova geração de especialistas no país
ALCÂNTARA, Maranhão. A decolagem do foguete VSB-30 servirá de batismo a uma nova geração de técnicos do programa espacial brasileiro. A Operação Cumã II é considerada um marco de transição após a explosão do lançador de satélites VLS-3, em agosto de 2003, que matou 21 civis e lançou uma nuvem de incertezas sobre os planos espaciais do Brasil.
Pela primeira vez, engenheiros que ocupavam cargos subalternos na época do acidente vão assumir posições de comando na hierarquia da operação. É o caso de Gustavo Esdras, engenheiro elétrico de 30 anos formado na Unicamp. Discípulo do pesquisador Gines Ananias Garcia, morto aos 45 anos na explosão, ele se especializou no Centro Técnico Aeroespacial (CTA), em São José dos Campos, no interior paulista. Casado e sem filhos, ele diz não ter medo de uma nova tragédia no centro de lançamento:
-Os procedimentos de segurança foram reforçados. A explosão é uma lembrança permanente para não repetimos os mesmos erros.
Chefe de uma equipe de três especialistas na Operação Cumã II, Esdras está sendo preparado com viagens e cursos no exterior para assumir o setor elétrico na próxima missão espacial brasileira. O investimento na formação dos profissionais é a forma mais eficiente de suprir a pouca experiência na área, argumenta o diretor do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), tenente-coronel Olympio Achilles.
Apesar disso sabemos que as perdas de 2003 são irreparáveis ¿ afirma.
Segundo investigações comandadas pelo próprio CTA, um problema elétrico pode ter acionado acidentalmente um dos motores enquanto os técnicos faziam os últimos preparativos para o vôo do VLS-3. Seis meses depois da explosão, o Ministério da Defesa concluiu que houve uma serie de erros, mas não apontou os responsáveis. A Justiça Federal de São José dos Campos já deu sentença favorável a dez dos 17 pedidos de indenização das famílias das vitimas. Se a União recorrer, os processos podem se arrastar até o Superior Tribunal Federal. (B.M.F.)