Título: Poderosos do passado tentam recuperar prestígio político
Autor: Camarotti, Gerson
Fonte: O Globo, 15/07/2007, O País, p. 12

Collor, Genoino, Palocci, Ibsen e João Paulo lutam para não ser fantasmas

BRASÍLIA. Sem o prestígio e a influência que tinham nos destinos do país até um passado recente, diversos políticos tentam recuperar hoje, seis meses depois da posse do novo Congresso, espaço na cena nacional. Mas o retorno de antigos ministros, ex-presidentes da Câmara e do Senado e até mesmo do ex-presidente Fernando Collor de Mello tem sido difícil para a maioria deles. Nos corredores do Congresso, alguns chamam atenção muito mais pelo poder que já tiveram no cenário de Brasília do que pela atuação dos seus mandatos atuais.

Nessa galeria, ganham destaque na Câmara os ex-presidentes da Casa Ibsen Pinheiro (PMDB-RS) e João Paulo Cunha (PT-SP), o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci (PT-SP), o ex-presidente do PT José Genoino (SP), o ex-presidente do Senado Jader Barbalho (PMDB-PA) e o ex-ministro da Saúde Alceni Guerra (DEM-PR).

Quem estaria vivendo o retorno mais difícil é o ex-presidente e hoje senador Fernando Collor (PTB-AL), que sofreu impeachment em 1992. Pelos corredores do Congresso, Collor vagueia sem interlocução política e com pouca intimidade com os atuais congressistas. É tratado como um fantasma pelos colegas. Ele procura recuperar os holofotes do passado, quando tudo o que fazia ganhava as primeiras páginas dos jornais.

Para isso, levantou a bandeira ambientalista. Preside a Subcomissão de Acompanhamento do Regime Internacional sobre Mudanças Climáticas e é vice-presidente da Comissão Mista Especial sobre Mudanças Climáticas. Além disso, comanda a Frente Parlamentarista, em defesa do parlamentarismo no Brasil. Mesmo assim, é visível seu deslocamento no Senado. Poucos são os colegas que se aproximam em plenário. Ele mesmo parece sentir-se desconfortável nesse papel. Procurado pelo GLOBO, não quis falar.

A volta à vida política tem sido particularmente dura para Alceni Guerra, denunciado por irregularidades na Funasa quando foi ministro da Saúde. As denúncias nunca foram comprovadas. Ele não esconde a decepção com a nova vida parlamentar. Mesmo com prestígio na bancada de seu partido, o DEM, Alceni confessa que não se recandidataria se houvesse uma eleição hoje:

- Essa é a pior experiência da minha vida. Esta legislatura é uma sensação de inutilidade total. Nunca me senti tão frustrado. Errei de profissão: troquei a de médico, que tem a maior credibilidade, pela de político, que tem a menor credibilidade! - desabafa.

Visão diferente é percebida pelo deputado Ibsen Pinheiro, que foi cassado quando era presidente da Câmara depois de ser acusado de se beneficiar financeiramente do esquema dos anões do Orçamento. Quase 14 anos depois, mostra-se realizado com os gestos de reconhecimento que diz estar recebendo dos parlamentares. Semana passada, era abordado constantemente no plenário por funcionários e deputados que lembraram de seu aniversário de 71 anos.

- O sofrimento aproxima as pessoas. Não perdi nenhum amigo, mas ganhei vários outros nesse período. Percebo o carinho das pessoas aqui no Congresso. Eu me sinto como se tivesse no topo de minha carreira política. Se não tive a reparação que poderia ter, pelo menos tive mais do que poderia esperar - diz Ibsen.

Já entre os petistas, o trauma ainda é grande: Palocci, Genoino e João Paulo fogem da imprensa. O ex-ministro da Fazenda, que renunciou ao cargo depois do escândalo da quebra de sigilo bancário de um caseiro, está deslocado na Câmara. Tem um papel periférico no debate da economia. Mas ainda é uma referência, principalmente por causa de amigos poderosos, como o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

Já José Genoino, que renunciou à presidência do PT depois que foi avalista de empréstimos feitos ao partido pelo empresário Marcos Valério, tenta retomar a velha forma, usando seus conhecimentos do regimento da Câmara para ajudar o Planalto.

- Quero ser esquecido pela imprensa. Não sou mais protagonista. Meu trabalho agora é outro - diz Genoino.

João Paulo, que quase renunciou ao mandato depois que descontou um cheque do valerioduto, mas foi absolvido em plenário, está longe dos holofotes, mas recuperou espaço como articulador político do partido desde que conseguiu ajudar Arlindo Chinaglia a ocupar a presidência da Câmara.

- A política tem o seu tempo. E agora, os protagonistas são outros - comenta João Paulo, sem esconder o desconforto.

Quem ganhou espaço nos bastidores foi Jader, que renunciou ao mandato de senador depois que foi denunciado por irregularidades em financiamentos da Sudam. Eleito deputado, virou interlocutor freqüente do presidente Lula e é um dos conselheiros do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Não optou por acaso pela discrição. Longe da mídia, voltou a ser um dos políticos mais influentes do governo Lula.