Título: Carros em (f)alta
Autor: Novo, Aguinaldo e Ribeiro, Fabiana
Fonte: O Globo, 15/07/2007, Economia, p. 25
NA COLA DE UM ZERO KM
Revendas aproveitam forte demanda para fixar preços acima da tabela das montadoras.
Oconsumidor está pagando mais caro para ter um carro zero quilômetro dos modelos mais procurados do mercado. Os modelos flex do Civic, sedã médio da japonesa Honda que caiu no gosto do brasileiro, têm sido vendidos em algumas concessionárias de Rio e São Paulo por preços entre R$2 mil e R$3 mil acima dos sugeridos pela montadora. Em lojas do Centro de São Paulo, os vendedores pedem até R$66.800 pela versão básica do veículo, contra os R$64.400 recomendados pela Honda.
No Rio, em algumas concessionárias, há um Honda Fit para cada três consumidores interessados. Com isso, o modelo básico do carro está sendo vendido por R$49.440 - 6,1% acima do preço sugerido pela montadora. O preço alto, contudo, não espanta os compradores: a espera pelo modelo com a cor desejada pode levar mais de um mês.
Lojas elevam margens de lucro
Os vendedores explicam que o valor reflete a velha lei da oferta e procura: como há muita gente interessada no carro, e a montadora não tem dado conta da demanda interna, o preço do produto disponível no mercado sobe. Com isso, os consumidores que não estão dispostos a enfrentar uma fila de espera de até 60 dias para sair de carro novo acabam aceitando pagar acima das tabelas sugeridas pelos fabricantes e enviadas às revendedoras, que aproveitam o momento para engordar suas margens de lucro.
- Não há tabelamento de preços. O que as montadoras têm é um preço sugerido, e as concessionárias são livres para fixar o preço que quiserem. Com isso, esses valores maiores têm a ver com o custo da ansiedade do consumidor. Ele deve fugir dessa situação e procurar, portanto, condições melhores - afirma o economista André Braz, responsável pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Sem tabelamento, o pagamento de sobrepreço não é ilegal, mas revive uma prática comum na segunda metade dos anos 80 no país. Segundo especialistas do setor, uma das razões que mais contribui para o aquecimento da demanda por automóveis atualmente é o crédito farto. O consumidor pode parcelar a compra em até 72 meses e ainda sair da loja sem desembolsar um tostão de entrada. Resultado: o setor automobilístico espera vendas recordes este ano.
As próprias montadoras voltaram a reajustar seus preços no início deste mês, entre 0,31% e 1,22%. O Mille Fire 1.0, o carro mais em conta no mercado, passou a valer R$22.440, o equivalente a US$12.064 pelo câmbio da última sexta-feira (R$1,86).
Em concessionárias do Rio, os vendedores explicam que, a partir da segunda quinzena de agosto, os preços devem cair porque as férias coletivas das montadoras vão terminar, aumentando a produção e, assim, normalizando o mercado.
A Honda reafirmou que não tem interferência no preço cobrado para o consumidor. Sobre os problemas de abastecimento do mercado - a fila de espera pelo Civic pode chegar a 60 dias -, diz que neste segundo semestre voltará a ampliar a capacidade de produção de sua fábrica em Sumaré, no interior paulista. A montadora produz hoje 450 carros por dia, contra uma média de 360 em janeiro.
Outro modelo com preço acima do recomendando é o Tracker, utilitário esportivo fabricado pela General Motors (GM) na Argentina e lançado no Brasil em outubro passado. Oferecido em uma única versão, com ar-condicionado, direção hidráulica e vidros elétricos, tem sido vendido em São Paulo por R$63 mil, enquanto o preço sugerido pela montadora é de R$59.990. A espera pelo modelo, dependendo da cor escolhida, pode ser de um mês. Ou mais.
A GM diz que a expectativa inicial era vender 300 unidades por mês, mas isso ficou para trás. Só em maio, foram 505 unidades. Em junho, outras 464. A GM acrescenta que é o mercado que regula o preço final, por causa da oferta e da demanda.
- A indústria teve um crescimento acima da expectativa inicial, o que gerou desequilíbrio temporário entre oferta e demanda - disse o diretor nacional de Vendas da GM, Francisco Stefanelli. - Até a segunda quinzena de agosto, vamos regularizar a situação do Tracker.
Numa concessionária GM no Rio (que reúne três lojas), só havia disponível para pronta entrega sete carros da marca Prisma - que custa acima de R$34 mil. Segundo o vendedor, um estoque que seria facilmente queimado este fim de semana. Encomendar o carro significa, para o consumidor, ter de esperar 45 dias, mais ou menos.
Prazo maior para financiamento
De acordo com especialistas do setor, a principal responsável por essa explosão é, sem dúvida, a farta concessão de crédito, que responde por cerca de 75% das vendas no mercado interno. E o que tem atraído o consumidor é o aumento do número de prestações, que dilui o custo final da compra. O prazo médio passou de 504 dias, em maio de 2006, para 559 dias este ano, o que resultou numa redução de cerca de 10% do valor das prestações. A taxa média de juros também caiu, mas em pequena magnitude (de 33,3% para 29,8% ano), enquanto o spread embutido nas prestações aumentou de 18,2% para 19,1% ao ano.