Título: Os ecos da vaia
Autor: Damé, Luiza
Fonte: O Globo, 17/07/2007, O País, p. 3

Protesto abre guerra entre Cesar e Cabral e entre governo e oposição; presidente se diz triste.

As vaias que impediram o presidente Lula de abrir os Jogos Pan-Americanos no Maracanã, sexta-feira, provocaram ontem uma guerra entre o governador Sérgio Cabral e o prefeito Cesar Maia, e também entre governo e oposição. De manhã, em seu programa de rádio, Lula tomou a iniciativa de falar sobre as vaias. Tentando demonstrar naturalidade com os protestos num Maracanã lotado por 75 mil pessoas, o presidente disse ter ficado triste:

- Eu sei que muita gente fica incomodada. Para mim, na minha vida política, a vaia e o aplauso são dois momentos de reação do ser humano. A única coisa com que eu, particularmente, fico triste é que fui preparado para uma festa. É como se eu fosse convidado para o aniversário de um amigo meu, chegasse lá e encontrasse um grupo de pessoas que não queria a minha presença - disse.

A decisão de tratar das vaias no programa foi de Lula, que evitou entrar na polêmica sobre se foram orquestradas ou não. Mas manifestou confiança de que a reação no Maracanã não é uma posição generalizada da população do Rio:

- Tenho certeza de que não é este o pensamento do Rio de Janeiro. Depois que terminou o evento, várias pessoas vieram dizer que (a vaia) tinha sido organizada, que gente tinha recebido convite. A mim, não interessa o que aconteceu. Já aconteceu. O importante é que foi uma abertura extraordinária dos Jogos Pan-Americanos.

Relação com o Rio não muda, afirma

No Palácio do Planalto, o anúncio da Federação das Indústrias do Rio (Firjan), publicado ontem no GLOBO, agradecendo o apoio do governo federal e de Lula aos Jogos, foi citado como um contraponto às vaias. O anúncio enumera investimentos feitos pelo governo federal no Rio para o Pan e "celebra a reconciliação do Brasil com o estado".

- Acredito que é preciso que todos nós, brasileiros, tenhamos consciência de que o Rio de Janeiro merecia um evento dessa magnitude, merecia os investimentos feitos pelo governo federal, que colocou lá R$2 bilhões. Colocamos porque temos consciência de que o Rio é um estado importante para o Brasil, porque é importante a gente mostrar uma qualidade extraordinária nos serviços que estamos oferecendo, sobretudo para o local dos eventos em que os atletas vão participar, para a questão da segurança pública - disse Lula.

O presidente afirmou ainda que as vaias não vão mudar a relação do governo federal com o Rio, e prometeu mais investimento no estado, sem enumerar quais:

- Eu tenho consciência do que representa o Rio para o Brasil. Tenho consciência de que o povo do Rio de Janeiro tem sua auto-estima, neste momento, muito melhor do que tinha há três, quatro anos. Temos muitos projetos para trabalhar no Rio e vamos trabalhar. Isso não muda um milímetro o meu comportamento. O Rio, a gente poderia dizer, continua lindo e merece que o governo federal faça o que for possível.

O presidente afirmou que atletas e dirigentes elogiaram as instalações, tanto da Vila Olímpica quanto das quadras esportivas, e a solenidade de abertura do Pan.

- Nós precisamos torcer para que as pessoas saiam daqui com uma imagem altamente positiva da capacidade de organização do Brasil para fazer eventos internacionais dessa magnitude. Aí sim, poderemos começar a pensar concretamente na Copa do Mundo de 2014 e na organização de uma Olimpíada, quem sabe, em 2016.

O presidente elogiou ainda o esforço do lutador Diogo Silva, que ganhou medalha de ouro no taekwondo.

www.oglobo.com.br/esportes/pan2007