Título: Imediatismo e a crise
Autor: Goldfajn, Ilan
Fonte: O Globo, 17/07/2007, Opinião, p. 7
Só há três coisas inevitáveis na vida: morte, impostos e populismo macroeconômico terminar mal. Essa é a versão latino-americana da famosa frase de Benjamin Franklin, que só mencionava os dois primeiros itens. A crise de falta de energia na Argentina é o exemplo mais recente disso.
Desde meados de maio, a Argentina enfrenta uma severa escassez de gás e de energia elétrica. Após anos com tarifas congeladas e falta de investimentos, a oferta energética não é mais suficiente para atender ao consumo, que aumentou com as políticas expansionistas e, agora, recrudesceu com a chegada do frio. A Argentina precisa diariamente de cerca de 18 mil megawatts de energia elétrica, mas conta apenas com 16 mil megawatts. No caso do gás, a carência supera os 25 milhões de metros cúbicos diários. Não existe hoje a perspectiva de uma solução rápida.
O ser humano às vezes inibe as vontades imediatas em prol do bem-estar no futuro. Planos de poupança e regimes alimentares são exemplos de autocontrole que rendem benefícios a longo prazo. Os governos têm (ou deveriam ter) o mesmo desafio: restringir o "imediatismo" em prol dos benefícios a longo prazo.
Mas é relativamente fácil governos obterem ganhos de curto prazo, principalmente em ambientes mundiais favoráveis. Políticas expansionistas - fomentadas com juros negativos e câmbios artificialmente depreciados - aumentam renda, emprego e salários a curto prazo. Para controlar a inflação, recorre-se a congelamento de tarifas públicas, manipulação de índices de preços oficiais e mão pesada com os empresários para forçá-los a vender a preços mais baixos.
Políticas "imediatistas" são quase irresistíveis para os míopes (aqueles que não enxergam o longo prazo), ou que possuem objetivos políticos de curto prazo. Afinal, se não houvesse conseqüências futuras, por que o Estado simplesmente não confisca tudo o que tem valor na economia? Por que não extrai o menor preço dos empresários que já investiram? Por que não aumenta ao máximo o imposto sobre o capital existente das empresas? Por que governos simplesmente não quebram todas as patentes existentes e reduzem os preços dos medicamentos?
Todas essas medidas teriam conseqüências negativas a longo prazo. Quem, depois, investiria em criar medicamentos essenciais para a saúde pública? Quem investiria nas novas fábricas e novas fontes de energia? Os empresários sem perspectivas de lucro evitariam investir em ampliar a capacidade de produção, o que geraria escassez e inflação (mesmo com controles e manipulação de preços). O Estado não tem os recursos e a disposição para assumir todos esses investimentos necessários. No caso da falta de investimento no setor de energia as conseqüências são mais sérias, já que os investimentos demoram alguns anos para dar resultados.
Na Argentina, mesmo diante da crise energética, o governo decidiu continuar privilegiando o imediatismo. Primeiro, decidiu quebrar um contrato internacional e parar de fornecer gás para o Chile, de fato transferindo (por enquanto) o racionamento para o país vizinho. Segundo, para evitar impactos na eleição deste ano, o governo escolheu racionar a energia para os grandes consumidores industriais e evitar cortes residenciais, ordenou que as empresas diminuíssem seu consumo para evitar um apagão generalizado. A medida atingiu 4.810 grandes usuários. No caso do gás, as distribuidoras receberam ordem para interromper o fornecimento a todas as grandes indústrias.
Enquanto a Argentina atinge o Chile, o Brasil resolveu atender ao pedido dos argentinos e oferecer-lhes energia, permitindo inclusive deslocar gás boliviano do Brasil para a Argentina. Como sabemos, não há sobra de energia no país, e talvez seja tarefa difícil no futuro realocar de volta o gás boliviano para o Brasil, quando isto for imperativo por aqui.
No Brasil temos sido menos intensos no imediatismo, em parte por causa do passado de fortalecimento das instituições (com reversão recente). Mesmo assim, a falta de um ambiente regulatório adequado e as políticas implementadas nos últimos anos não têm incentivado o investimento em infra-estrutura. O Brasil pode ainda escapar de uma nova crise de energia, mas já estão encomendados futuros aumentos de preço da energia, o que deve eventualmente elevar a inflação e interromper a trajetória de queda de juros. Quando, e se esse momento chegar, devemos nos lembrar das reais causas dessa interrupção.
ILAN GOLDFAJN é professor da PUC-Rio. E-mail: goldfajn@econ.puc-rio.br.