Título: A parceria hispano-brasileira
Autor: Conde, Ricardo Peidró
Fonte: O Globo, 17/07/2007, Opinião, p. 7

O Príncipe de Astúrias e herdeiro da Coroa espanhola, D. Felipe de Borbón, vem ao Brasil para apresentar o relevante projeto de expansão do Instituto Cervantes e presidir em Brasília o ato de inauguração dos novos centros em Brasília, Curitiba, Porto Alegre e Salvador. Além disso, nos próximos meses começarão a funcionar novos centros em Belo Horizonte, Florianópolis e Recife que, somados aos já existentes no Rio de Janeiro e em São Paulo, transformarão o Brasil no país com maior número de sedes do Instituto. Com este importante esforço, a Espanha quer contribuir para atender à demanda de ensino da língua espanhola neste país de dimensões continentais, que, após a entrada em vigor da lei 11.161, obriga a todos os centros de ensino médio a oferecer cursos de espanhol.

A visita do Príncipe Felipe significa um novo marco na parceria estratégica hispano-brasileira, que desde o ano de 2003 mostra sua vitalidade e relevância. Essa vontade política, que reflete uma evidente afinidade entre nossos povos, foi reiterada pela Declaração de Brasília de Consolidação da Parceria Estratégica entre a Espanha e o Brasil, assinada, em 24 de janeiro de 2005, pelo presidente do governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, e pelo presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva.

A língua espanhola é um idioma vivo e pujante. É a quarta língua mais falada do mundo (440 milhões de pessoas), segunda como instrumento de comunicação e idioma oficial em 21 países. No Brasil, o espanhol é a segunda língua estrangeira mais estudada, depois do inglês. A língua espanhola representa um imenso patrimônio cultural, assim como uma forma de entender o mundo.

A expansão do Instituto Cervantes se soma à valiosa cooperação que o Ministério de Educação da Espanha e as universidades espanholas vêm desenvolvendo com o Brasil. A maior parte desse esforço se dedica a ajudar na formação contínua dos professores de espanhol da rede pública, mediante cursos de atualização gratuitos oferecidos às Secretarias de Educação dos estados e dos municípios e às universidades públicas brasileiras. No último biênio foram atendidos mais de cinco mil professores brasileiros de espanhol. A nova rede do Instituto Cervantes no Brasil fortalecerá ainda mais a intensa cooperação cultural hispano-brasileira. Junto com outras instituições como a Agência Espanhola de Cooperação Internacional (Aeci) e a Fundação Carolina, continuará se fomentando o conhecimento mútuo, a interação e a criação de redes culturais entre os dois países e com os demais da Ibero-América.

Outro bom exemplo da cooperação técnica bilateral é a desenvolvida no setor da governabilidade e da Justiça. A Cooperação Espanhola está firmemente comprometida com a criação e o desenvolvimento da nova Escola Nacional de Formação dos Magistrados do Trabalho (Enamat), mediante o projeto executado com o Tribunal Superior do Trabalho - cuja sede visitará o Príncipe de Astúrias durante sua estada em Brasília. Nesta mesma linha, está sendo estudado com o Tribunal Superior de Justiça o apoio da Cooperação Espanhola à nova Escola Nacional de Formação de Magistrados (Enfam). A solidez destes projetos reside em permitir um verdadeiro irmanamento entre os sistemas de justiça espanhol e brasileiro, favorecendo, assim, o fortalecimento mútuo na área judicial e, em última instância, a melhoria da governabilidade.

As relações econômicas e comerciais bilaterais conheceram por sua vez um impulso formidável ao longo da última década, sobretudo os investimentos em setores como energia, telecomunicações e financeiro, nos quais as principais empresas espanholas apostaram firmemente pelo Brasil com uma visão a longo prazo. A Espanha, com um estoque acumulado de quase 30 bilhões de dólares, situou-se como o segundo maior investidor estrangeiro no Brasil. Agora, uma nova fornada de investimentos espanhóis neste país, provenientes de empresas de menor porte, está diversificando o investimento em novos setores como os da alimentação, químico, automotivo e turístico. Também as empresas brasileiras começam a olhar para a Espanha como um destino para seus investimentos.

Se no passado nossos países tiveram seis décadas de "vida em comum" durante a união das Coroas espanhola e portuguesa, entre os séculos XVI e XVII, hoje a Espanha e o Brasil querem enfrentar juntos os desafios do século XXI, inspirados nos valores que compartilhamos. A parceria estratégica hispano-brasileira consolida esse compromisso de responder melhor aos desafios contemporâneos mediante o diálogo privilegiado e a cooperação.

RICARDO PEIDRÓ CONDE é embaixador da Espanha no Brasil.