Título: Euro cai... Mas nem tanto
Autor: Rosa, Bruno
Fonte: O Globo, 17/07/2007, Economia, p. 17
Turista aproveita dólar baixo, mas moeda européia tem queda menor frente ao real.
Em plenas férias escolares, viajar para a Europa não está tão mais barato assim. Apesar da festa com a queda de até 12,44% do dólar este ano em relação ao real, o turista encontra uma redução mais discreta no euro, de 8,65% ante a moeda brasileira no mesmo período. A libra esterlina, utilizada no Reino Unido, segue caminho semelhante no Brasil, com recuo de 9%. Ontem, as duas moedas européias bateram novos recordes em comparação à divisa americana. A libra fechou a US$2,036, maior patamar desde 1981. E o euro permanece no nível mais alto desde sua criação, em 1999: US$1,377. Em reais, porém, essas moedas estão mais baratas do que no ano passado, porque a moeda nacional ganhou terreno frente ao dólar.
Os balcões das agências de turismo refletem esse dólar mais vantajoso do que as moedas européias. Nesta temporada, a procura por pacotes para a Europa cresceu 10% frente ao mesmo período do ano passado, contra uma alta de 20% nas viagens para EUA e América Latina. Segundo os empresários, os pacotes destinados à Europa representam 20% dos negócios.
Orlando sai mais barato que Lisboa
É o caso da Só Viagens. Segundo Athayde Botto, diretor da empresa, os brasileiros têm optado por destinos mais em conta. Enquanto um pacote de sete dias para Orlando, nos Estados Unidos, sai a US$1.100 (R$2.058), uma viagem semelhante para Lisboa, em Portugal, custa US$1.500 (R$2.806).
- O crescimento da Europa é o menor nestas férias - diz Botto.
Para Sônia Carbone, gerente comercial da Tia Augusta, o grande fluxo de viagens é para Estados Unidos, Argentina e Chile. Na opinião de André Rondinelli, sócio da Maggiore Viagens, passagens para países da Europa são hoje a terceira opção entre os brasileiros.
Marta Krautz, da Mar-tha Rio, diz que o turista deve ficar atento aos valores do dólar turismo, referência para as viagens. Ontem, segundo o Banco do Brasil, a cotação fechou a R$1,96, e o paralelo, utilizado em algumas casas de câmbio, ficou em R$1,99.
- Se for para a Europa, também é bom levar euro ou traveller check em moeda local. Na Inglaterra, a libra. Na América do Sul e nos EUA, recomenda-se usar dólar - diz Marta, lembrando ainda que o cartão de crédito é sempre uma opção mais segura.
Jeanette Maire Graça endossa as estatísticas das empresas. Ela comprou um pacote de cruzeiro para a América do Sul. Este ano, ela não quis ir para os Estados Unidos nem para a Europa. Além de escapar da crise nos aeroportos, aproveitou a cotação baixa do dólar:
- Juntei o útil ao agradável.
Segundo Vera Affonso, proprietária da Divert Turismo, as viagens para o Cone Sul cresceram muito nos últimos dois anos. De abril a julho deste ano, 65% dos clientes da agência embarcaram para a América Latina, enquanto só 20% foram para Europa.
A tendência, dizem os analistas, é que o dólar continue em baixa frente às moedas européias. Como há expectativa de altas dos juros no Reino Unido e na zona do euro até o fim deste ano, os investidores internacionais têm migrado parte de suas aplicações para a Europa, aumentando a demanda sobre suas moedas e, portanto, deixando-as mais caras.
Para Reginaldo Galhardo, da Treviso Corretora, as altas das moedas na Europa tendem a ficar ainda mais visíveis nos próximos meses. Para ele, o mercado já trabalha com o euro a US$1,40 no curto prazo. E a libra não pára de subir: só este mês, a moeda já bateu dois recordes.
- Não deve haver aumento de juros nos Estados Unidos. Além disso, há o risco de que os problemas nas hipotecas de alto risco (as chamadas subprime) dos EUA se alastrem por toda a economia, o que faz os investidores buscarem outros mercados - diz Galhardo.
Tómas Málaga, economista-chefe do Itaú, lembra ainda que a desvalorização do dólar é fruto do grande déficit em conta corrente americano, de US$820 bilhões anuais.
José Góes, gestor de câmbio da Mandarim, ressalta que, com a tendência de queda de juros no Brasil, o dólar tende a subir frente ao real a longo prazo. Porém, nos próximos meses, a expectativa ainda é de queda: os analistas projetam dólar a R$1,80 até o fim deste ano.
Previsão de corte de meio ponto na Selic
Ontem, no mercado brasileiro, o dólar fechou em leve alta, de 0,48%, cotado a R$1,871 na venda. O mercado financeiro começou a semana em compasso de espera pela decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), na reunião que acontece hoje e amanhã. A expectativa de analistas é que o BC vá reduzir em meio ponto percentual a taxa básica de juros, a Selic, para 11,5% ao ano.
A Bolsa de Valores de São Paulo teve queda de 0,47%, com investidores aproveitando para embolsar os ganhos depois das altas da semana passada. O vencimento de opções movimentou R$1,969 bilhão. Nos Estados Unidos, a Bolsa de Nova York bateu novo recorde, com o indicador Dow Jones subindo 0,31%. O risco-país teve alta de 1,96% e encerrou aos 156 pontos.
Acompanhando a queda da Bolsa e a alta do dólar, os contratos de juros futuros mais negociados tiveram leves altas. A taxa para janeiro de 2010 subiu 0,05 ponto, apontando juros de 10,62% ao ano.
COLABOROU: Felipe Frisch