Título: Onde estão eles ?
Autor: Jungblut, Cristiane e Doca, Geralda
Fonte: O Globo, 19/07/2007, O País, p. 19

BRASÍLIA. Autoridades brasileiras que poderiam, e deveriam, vir a público para dar informações e manifestar solidariedade às famílias dos mortos na tragédia com o avião da TAM desapareceram durante o dia de ontem. Quase 24 horas depois do acidente, as manifestações limitaram-se a comunicados, alguns lidos, como foi o caso da mensagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se dirigiu à nação por meio do porta-voz, Marcelo Baumbach. Outros ficaram apenas nas páginas da internet do Ministério da Defesa, da Aeronáutica e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). A ministra do Turismo, Marta Suplicy, que sugeriu a passageiros que enfrentam filas nos aeroportos "relaxar e gozar", está em Portugal. Seus assessores tentam antecipar sua volta.

Embora o governo se empenhasse em registar que Lula ficou consternado ao receber a notícia da tragédia, ele não apareceu para, pessoalmente, declarar-se solidário às famílias das vítimas. Assessores do Palácio do Planalto ainda avaliam se Lula deve ou não ocupar cadeia de rádio e TV para transmitir uma mensagem ao país sobre a tragédia. Ontem, Lula cancelou a agenda da tarde. De manhã, ele se submeteu a uma pequena cirurgia na pálpebra direita para remover um terçol e, por orientação médica, foi repousar.

O comandante da Aeronáutica, Juniti Saito, desde a noite de anteontem ficou em Congonhas, mas não deu entrevistas. O ministro da Defesa, Waldir Pires, enviou para o local o major-brigadeiro-do-ar Jorge Godinho Barreto Nery, assessor especial. Mas Waldir Pires também não falou nem apareceu. O presidente da Anac, Milton Zuanazzi, e o da Infraero, José Carlos Pereira, também não deram entrevistas.

De manhã, Tarso Genro (Justiça) e Walfrido dos Mares Guia (Relações Institucionais), depois de se reunirem com Lula, deram entrevista, na linha de "não podemos nos precipitar e devemos aguardar o término das investigações para saber exatamente o que aconteceu".

Nas palavras de um ministro, "o governo resolveu dar tratamento equilibrado e técnico à situação", apesar da comoção nacional. Só por volta das 18h, técnicos da Infraero e do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes (Cenipa), da Aeronáutica, deram entrevista em São Paulo.

O governo afirma que, embora nenhuma autoridade federal tenha se pronunciado publicamente sobre o acidente, os responsáveis por órgãos envolvidos direta ou indiretamente foram deslocados para São Paulo para acompanhar os trabalhos.

A maior tragédia da aviação civil brasileira evidenciou, mais uma vez, a fragilidade do ministro da Defesa, Waldir Pires. E o próprio presidente Lula já não disfarça seu descontentamento com a situação, embora insista no estilo de não dispensar auxiliares no auge de crises. No fim do dia de ontem, no Planalto, a avaliação, em tom desolador, era que faltou, na mídia, uma presença mais firme do governo - justamente a função que deveria ter sido assumida por Pires.

Pires tem sido um coadjuvante nas decisões do governo. O próprio Lula foi quem telefonou para o brigadeiro Juniti Saito, comandante da Aeronáutica, e determinou que ele fosse para São Paulo. Em todos os momentos, Saito telefonou diretamente para Lula. Foram oito telefonemas só na noite de terça-feira.

Lula também não ficou sabendo da tragédia por Pires. Foi informado pelo brigadeiro Joseli Camelo, coordenador de Assuntos Militares da Presidência. O ministro foi o último a entrar no gabinete presidencial naquela noite, quando Lula já havia determinado o deslocamento não só do brigadeiro Saito, mas também do presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, para São Paulo. Mesmo assim, Lula aguarda um momento de calmaria para discutir com Pires sua substituição.

Grandes tragédias nacionais tradicionalmente geram reação imediata dos chefes de Estado e de governo no exterior, e qualquer hesitação é criticada pela opinião pública. Um dos exemplos mais recentes foi o da família real espanhola, após os atentados de 11 de março de 2004 que mataram 191 pessoas em Madri. O rei Juan Carlos e a rainha Sofia visitaram vítimas em hospitais horas depois do ataque.

Em agosto de 2005, o presidente americano, George W. Bush, foi criticado por só ter adiantado o fim de suas férias quando 80% de Nova Orleans estavam debaixo d"água, mas isso ocorreu só dois dias depois de a cidade ser atingida pelo furacão Katrina. Quando um atirador matou 32 pessoas na Universidade Virginia Tech, em abril deste ano, Bush falou à nação no mesmo dia, e em 24 horas estava no campus para uma homenagem às vítimas.

O primeiro-ministro da Austrália. John Howard, esteve em Bali, na Indonésia, cinco dias depois que dezenas de australianos foram mortos num atentado em outubro de 2002, para confortar os feridos.