Título: Juros maiores para frear a China
Autor: Scofield Jr., Gilberto
Fonte: O Globo, 21/07/2007, Economia, p. 37

Governo adota medidas para conter superaquecimento da economia, que cresceu 11,9%.

Um dia depois de o governo da China anunciar um crescimento da economia de 11,9% no segundo trimestre, o maior em 12 anos, o Banco Popular da China, o BC do país, anunciou ontem a elevação, em 0,27 ponto percentual e pela terceira vez este ano, da taxa básica de juros para empréstimos de um ano - de 6,57% para 6,84%, seu mais alto patamar dos últimos oito anos. Os juros que remuneram os depósitos em bancos, a aplicação financeira mais popular da China, também subiram, de 3,06% para 3,33%. As altas valem a partir de hoje. Desde 27 de abril de 2006, o BC chinês já aumentou as taxas cinco vezes.

As medidas buscam frear uma economia que muitos já julgam superaquecida com efeitos perversos, como a alta na inflação, que em junho chegou a 4,4% no acumulado de 12 meses, bem acima da meta de 3% fixada pelo governo para o ano e a maior taxa em três anos. O governo da China está aflito porque a remuneração dos depósitos é inferior à taxa de inflação, o que vem estimulando os aplicadores chineses a encherem as bolsas de valores de dinheiro.

Para compensar o impacto da elevada inflação sobre as taxas reais dos depósitos, o governo de Pequim reduziu um imposto sobre as receitas geradas por juros, de 20% para 5%. A medida também tem como objetivo fazer com que os investidores tenham menos incentivos para apostar na alta do mercado de ações.

"Esse ajuste de taxas de juros ajuda o crescimento razoável do crédito e do investimento, bem como a ajustar e estabilizar as expectativas sobre a inflação e a manter uma estabilidade básica do nível geral de preços", disse o BC chinês em comunicado.

As medidas esfriaram a confiança dos mercados na economia mundial, e as quedas nas bolsas refletiram essa expectativa.

Analista considera medidas insuficientes

Outro ponto de atrito que vem turbinando o crescimento chinês é o comércio exterior, cujo saldo acumulou US$112 bilhões no primeiro semestre, uma alta de 84% sobre o mesmo período do ano passado. A China está sob pressão para permitir que sua moeda se valorize a um ritmo mais acelerado, o que possibilitaria a redução da enxurrada de dinheiro gerada pelas exportações e diminuiria a tensão comercial com os EUA e a Europa. Ontem, o yuan recuou para 7,5740 em relação ao dólar, a partir da cotação de 7,5750 de antes do anúncio dos juros.

Analistas esperam ainda alguma medida de contenção na área de investimento em ativos fixos, ou seja, máquinas, equipamentos, instalações industriais e imóveis, cuja taxa de crescimento no primeiro semestre foi de 26,7%, bem acima dos 24,5% de todo o ano de 2006.

Apesar da ação do BC chinês, muitos duvidam da eficácia das medidas e argumentam que o nível de aumento deveria ser maior para conter tanto a atividade quanto o consumo.

- Nós acreditamos que essa é uma medida positiva, pois ajuda a conter as pressões do superaquecimento na China - disse Liang Hong, economista do Goldman Sachs Group Inc. em Hong Kong. - Mas essa alta de 0,27 ponto percentual é insuficiente, e continuamos prevendo mais um reajuste até o fim deste ano.