Título: Piloto culpa a pista
Autor: Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 25/07/2007, O País, p. 3

"A sensação era de que o avião não pararia a tempo".

SÃO PAULO. O Airbus A320 da TAM destruído com o acidente da semana passada foi palco de momentos de tensão na véspera da tragédia, segundo relato do piloto da TAM José Eduardo Batalha Brosco, de 33 anos, em depoimento à Polícia Civil de São Paulo. Motivo: falta de adesão do avião à pista. Ele conta que ficou 45 minutos no ar, à espera de orientação da torre de controle para se aproximar da pista principal. Ao tentar aterrissar, às 13h20m, foi informado de que a pista se encontrava "impraticável" por causa de um acidente com o avião da Pantanal. Brosco, piloto desde 1997, afirmou, no depoimento, que desligou o piloto automático e fez o pouso manualmente.

"Os freios foram acionados no máximo, porque a desaceleração não se mostrava suficiente para a parada da aeronave nos limites da pista", relata o piloto, no depoimento prestado ao 27º Distrito Policial. "Inclusive, nessa ocasião, eu e o co-piloto ficamos muito tensos, pois a sensação era de que a aeronave não pararia a tempo", disse Brosco. Ele confirmou que um dos reversos da aeronave estava travado. Mas afirmou que a falta do equipamento não prejudica o pouso.

Ele disse ainda que não havia problemas com os freios. Segundo o piloto, o problema era da pista principal de Congonhas. "Mesmo com a utilização do reverso, a sensação era a mesma, de que o avião não ia parar", disse. "A pista de Congonhas não é confiável", especialmente por falta de ranhura (grooving).

A informação sobre a falha em um dos reversos foi confirmada pelo piloto Paulo Marcelo Souza Soares, piloto desde 1991 e desde abril de 1998 na companhia. Ele também comandou, mas em outro trecho, o Airbus A320. A aeronave, no dia 15 de julho, fez o trecho Guarulhos-Foz do Iguaçu- Galeão-Salvador-Recife. Soares disse que o avião não apresentou qualquer irregularidade durante o vôo e que os reversos são "meros acessórios auxiliares".

O piloto, que pousou recentemente em Congonhas, também relatou problemas que enfrentou na pista: "No caso da chuva, a pista apresenta alguma dificuldade na frenagem, pois o atrito entre os pneus e a pista fica muito reduzido e a pista fica escorregadia". Soares afirmou que viveu os problemas antes das obras na pista, mas que a situação se agravou com a inauguração das reformas.

O promotor Mário Luiz Sarruggo, que acompanha o inquérito policial, disse que o depoimento dos dois pilotos foi taxativo:

- Congonhas em dias de chuva apresenta pontos de insegurança.

O delegado Antonio Barbosa, responsável pelo inquérito na Polícia Civil, disse ontem que enviou ofícios à Infraero e à Aeronáutica pedindo os registros das irregularidades ocorridas em Congonhas no dia do acidente. Os pilotos que relataram dificuldades nas vésperas do acidente também serão convocados a depor. Foram enviados ofícios à TAM, à Gol e à Pantanal. (Maiá Menezes)