Título: Choque a 175 km por hora
Autor: Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 25/07/2007, O País, p. 3

Todos os dados das caixas-pretas foram recuperados, inclusive conversas na cabine.

Os diálogos entre os pilotos do Airbus da TAM, poucos minutos antes de o avião se chocar contra um prédio da empresa e explodir, foram transcritos ontem pelos técnicos que analisaram as duas caixas-pretas da aeronave. O seu conteúdo, no entanto, foi mantido em sigilo por força de uma convenção internacional que proíbe a divulgação a pessoas não envolvidas nas investigações. Mas a equipe de peritos que realizam o trabalho revelou que as conversas nos minutos finais na cabine do Airbus - registradas na AVR, a caixa-preta com o gravador de áudio - contém informações relevantes sobre fatores preponderantes envolvendo o acidente. Elas serão confrontadas com o que foi registrado na outra caixa-preta, a FDR, que contém dados detalhados das operações de vôo do Airbus.

Dessa segunda caixa, os técnicos revelaram um detalhe: o avião, após pousar, não tinha velocidade suficiente para arremeter. Ele pousou na velocidade padrão e, ao colidir com o prédio da TAM, estava a cerca de 175 quilômetros por hora. Os deputados Marco Maia (PT-RS) e Efraim Filho (DEM-PB), representantes da CPI do Apagão Aéreo, que passaram mais de duas horas na NTSB ontem, contaram mais:

- O avião vinha derrapando desde a cabeceira da pista. Ele havia pousado dentro da velocidade padrão de 110 a 120 nós (203,7 a 222,24 km/h), mas bateu no prédio a 175 quilômetros por hora, cerca de 85 a 90 nós (na verdade 157,4 a 166,6 km/h) - contou Efraim.

Tanto a agência federal americana NTSB (Conselho Nacional para a Segurança dos Transportes), em cujos laboratórios a tarefa vem sendo desenvolvida, quanto o coronel Fernando Camargo, do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes), que chefia a equipe brasileira nos exames, evitaram revelar uma frase sequer da transcrição do gravador de voz.

O coronel Camargo disse que, à medida que os diálogos entre os pilotos eram ouvidos, sua equipe as traduzia para o inglês, por se tratar de uma investigação internacional - que, além da TAM, envolve a franco-germana Airbus e a americana Pratt&Whitney, fabricante das turbinas.

O gravador de dados continha registros de todos os 580 parâmetros da caixa-preta. A equipe selecionou 60 para serem analisados. O coronel calcula que essa parte do trabalho estará terminada na próxima sexta-feira, permitindo que ele e sua equipe embarquem de volta ao Brasil no fim de semana. Por isso, já foi marcada para a próxima terça-feira, em São Paulo, uma primeira reunião da comissão de investigação do Cenipa e do Comando da Aeronáutica. A perspectiva é a de que esse trabalho leve cerca de 12 meses.

Dados são exclusivos do Cenipa, diz brigadeiro

Apesar da determinação do presidente Lula para que a Polícia Federal investigue o acidente com o avião da TAM, a PF encontrará dificuldades para obter da Aeronáutica os dados da caixa-preta. O chefe do Cenipa, brigadeiro Kersul Filho, disse ontem que eles serão de uso exclusivo do Cenipa, a não ser que uma medida judicial o obrigue a repassá-los para qualquer órgão do governo ou a CPI do Apagão Aéreo:

- Não me consta que a Polícia Federal atue na área de prevenção de acidentes. É condenável o uso político dessas informações.

O brigadeiro afirmou que o Brasil é signatário de convenções que restringem a divulgação de informações desse tipo e que as revelações da caixa-preta devem ser utilizadas apenas para se tomar medidas de prevenção.

- Essas informações não têm o objetivo de revelar culpados ou de quem foi a responsabilidade pelo acidente. Esses dados não podem ser repassados a ninguém - disse o militar.

O brigadeiro não estabeleceu prazo, mas disse que a média mundial de apuração de um acidente desse tipo é de dezoito meses. O militar afirmou que espera concluir o caso do acidente que envolveu o Boeing da Gol com o Legacy em dois meses. Ele disse já reuniu-se cinco vezes com familiares das vítimas do acidente.

- Se o objetivo é indenização na Justiça, culpa, responsabilidade, o local não é o Cenipa - disse o brigadeiro.

COLABORARAM: Evandro Éboli e Geralda Doca