Título: 'O Brasil precisa de uma auditoria complexa no controle aéreo'
Autor: Martins, Marília
Fonte: O Globo, 25/07/2007, O País, p. 10
LONDRES. Para Cristoph Gilgen, integrante do Conselho Técnico da IFATCA (Federação Internacional dos Controladores de Tráfego Aéreo), e controlador a serviço da Skyguide, estatal a cargo do tráfego aéreo da Suíça, o Brasil deveria aceitar uma auditoria externa independente no setor aéreo, como foi feito em seu país em 2002. Gilgen, que também participou de uma comissão da IFATCA que visitou o Brasil logo após o acidente com o Boeing da Gol, no ano passado, diz que o exemplo suíço mostra conseqüências positivas e pede um pouco mais de humildade por parte das autoridades brasileiras.
Fernando Duarte
No Brasil está se falando que a IFATCA está defendendo uma intervenção no setor aéreo. Foi assim na Suíça?
CRISTOPH GILGEN: Nada acontece se autoridades e governo não aceitarem ou mesmo apoiaram uma auditoria externa, ou a ida de estrangeiros ajudando na resolução de uma crise. Não adianta nem começar, se não for assim. E, a julgar pelas declarações do presidente da Infraero, fica a impressão de que o governo brasileiro não quer o apoio dos gringos, embora eu ache estranho quando ele fale de "nossos mortos". Intervenção é uma palavra muito forte, estamos falando de apoio.
O exemplo da Suíça tem sido citado como caso de estudo. Você poderia falar um pouco mais sobre ele?
GILGEN: A Suíça sofreu eventos bem parecidos com os do Brasil entre 1998 e 2001. Houve desastres aéreos, incluindo o choque de dois aviões da Crossair perto do aeroporto de Zurique e a falência da Swissair. A reputação do setor aéreo na Suíça ficou bastante ruim, com sinceras dúvidas do público e da mídia sobre a eficiência e segurança. Foi quando o governo decidiu pedir ajuda e contratou os serviços de uma companhia holandesa, a NLR, que trabalhou na Suíça entre 2002 e 2003. As coisas melhoraram muito.
Que tipo de trabalho foi feito?
GILGEN: A auditoria nos ajudou a ver exatamente onde a Suíça realmente estava em matéria de segurança aérea, mas um dos pontos principais foi trazer seriedade para as discussões bem emocionais entre políticos, mídia e opinião pública. E também paz para as pessoas diretamente envolvidas com o tráfego aéreo. Os holandeses fizeram muitas críticas, especialmente à falta de investimento no setor.
O caso brasileiro, porém, é um pouco mais complicado, como você mesmo deve ter visto durante as investigações da queda do Boeing da Gol, não?
GILGEN: O Brasil precisa de uma auditoria mais complexa, especialmente porque faltam estruturas civis mais firmes para regular o setor. Seria necessária uma agência reguladora, com a tarefa de supervisionar a aviação civil e o controle aéreo em particular. Uma espécie de olho do Estado, que asseguraria o cumprimento das normas nacionais e internacionais. Uma auditoria neutra pode determinar a real situação atual e detectar pontos-chave na modernização e mudança na malha aérea. Isso não é tarefa para a IFATCA
Mas a IFATCA tem recomendações?
GILGEN: Não estamos falando de um acidente específico, até porque o do vôo JJ 3054 não parece ter nada implicando o tráfego aéreo, por exemplo. Mas são situações como o apagão de sábado e os casos de "quase" que assustam. A IFATCA acha que é necessário reestruturar tudo a respeito do controle aéreo no Brasil, com melhores condições de trabalho para os controladores, a modernização do equipamento e um melhor treinamento para os trabalhadores do setor. Segurança não é dada, mas sim suada.