Título: 'Proibir é fácil, difícil é fiscalizar'
Autor: Melo, Liana
Fonte: O Globo, 29/07/2007, Economia, p. 40

PAULO ADÁRIO

O avanço da cana sobre a Amazônia Legal está deixando os ambientalistas em estado de alerta. A preocupação do coordenador da Amazônia do Greenpeace, Paulo Adário, é que o governo vem negando a existência de canaviais na região só para evitar pressões internacionais ao etanol verde-amarelo.

O governo federal insiste em negar a existência de cana na Amazônia. Como o senhor avalia esse tipo de estratégia?

PAULO ADÁRIO: O temor do governo Lula é de que o mercado internacional levante barreiras não-tarifárias ao etanol brasileiro, caso o produto seja confundido com a Amazônia, considerada a jóia da coroa ambiental do planeta. Isso é totalmente equivocado.

Mas não é isso que os países ricos fazem para proteger suas economias?

ADÁRIO: Só que a afirmação de que não existe plantio na Amazônia demonstra uma intenção precipitada de dissociar a cana e, conseqüentemente, o etanol, do desmatamento. Com isso, o presidente Lula acabou incorrendo em dois erros ao mesmo tempo. O primeiro deles foi demonstrar total falta de conhecimento da realidade brasileira. O segundo é que ele deveria estar preocupado em evitar o avanço, não em negá-lo.

Mas o senhor considera que a cana já é hoje uma ameaça à floresta amazônica?

ADÁRIO: Ainda não é, mas pode vir a ser muito rapidamente até porque estamos falando de um país com sérios problemas de governança. Hoje, a cana é apenas uma ameaça indireta. A febre do etanol vai, num primeiro momento, provocar uma expansão mais acelerada na região Centro-Sul. Com isso, será inevitável que a pecuária migre ainda mais para a Região Norte aumentando a pressão sobre a floresta. O desmatamento hoje já é de 70 milhões de hectares. Nosso desmatamento já é do tamanho de países como a França.

O senhor acredita que a expansão da cana pode provocar problemas de segurança alimentar?

ADÁRIO: Não tenho a menor dúvida. O Brasil está correndo o sério risco de virar um país dividido entre a soja e a cana.

A intenção do governo é proibir a plantação de cana no bioma amazônico. O senhor acha que esse tipo de medida é suficiente?

ADÁRIO: Não sei se o governo tem condições de fazer valer a proibição do plantio de cana. Criar leis novas é fácil, difícil é fazê-las serem cumpridas. Como ele pretende fiscalizar? Não basta proibir, é preciso inibir o plantio. Acredito que seria bem mais eficiente se o governo fechasse a torneira dos bancos públicos e parasse de liberar financiamentos. Só assim seria possível inibir novos projetos. Além do mais, como nega a existência de cana na Amazônia, o governo não disse ainda o que pretende fazer com a cana que já está lá.