Título: O primo do norte
Autor: Thomé, Débora
Fonte: O Globo, 07/08/2007, Economia, p. 24

Pode até ser que, agora, com a ajuda do petróleo e do etanol, Brasil e México consigam, finalmente, começar a fechar acordos mais amplos de cooperação e negociação, mas não é isso que têm mostrado as últimas tentativas. Juntos, ambos países representam mais da metade do território latino-americano; 55% da população, num mercado de 300 milhões de consumidores, e cerca de 65% do PIB. Coincidem em uma série de aspectos, mas, até mesmo por isso, não têm conseguido estabelecer tratados mais amplos de comércio.

Brasil e México passaram por problemas semelhantes ao longo das últimas décadas; também optaram por soluções parecidas. Ambos levaram a cabo uma industrialização de substituição de importações, depois abriram suas economias e buscaram a inserção comercial regional e multilateral, lembra um artigo do mexicano Antonio Ortiz e do brasileiro Ricardo Sennes no livro que tem, não à toa, o título "Brasil y México: Encuentros y desencuentros". Os autores depois comentam que "a cooperação econômica entre ambas nações foi pequena na comparação com o potencial existente". De fato, ainda há muito espaço para que ambos ampliem os ganhos que podem ter um com o outro. Mas ninguém acredita que um tratado de livre comércio entre Brasil e México seja facilmente executável.

- O máximo que o Brasil conseguiu assinar até agora com o México foram acordos setoriais de complementação econômica, como o no setor automotivo e no químico. No caso de alguns produtos, há mais barreiras até entre os dois que no comércio com a Europa, por exemplo. Não acho que o problema está em eles produzirem alguns itens semelhantes. Acredito que um acordo bilateral entre ambos poderia ter um potencial maior até que com a Argentina - comenta Ricardo Sennes, sócio-diretor da Prospectiva Consultoria.

- México e Brasil têm uma pauta semelhante de exportações para a América Latina, para onde exportam produtos industrializados, mas, no mundo, são dois atores comerciais mínimos. O melhor a fazer é se unirem. O potencial de negócios dobraria de tamanho - afirma Alberto Pfeifer, diretor-executivo do Conselho de Empresários da América Latina (Ceal).

O comércio entre Brasil e México cresce a taxas bastante altas, tanto que hoje são o quinto destino das exportações brasileiras e sétimo maior parceiro comercial, com quem temos o enorme superávit de US$3,1 bilhões. De qualquer forma, ainda que a corrente de comércio - ou seja, a soma das exportações e importações - tenha triplicado de 1999 a 2006, a pauta é superconcentrada. Praticamente metade das exportações brasileiras para o México é de automóveis, autopeças ou produtos correlatos. Cerca de 16% de todas as nossas exportações de automóveis vão para lá, e isso certamente por causa do acordo setorial assinado no início da década. Como é, de um modo geral, uma negociação entre empresas, automóveis também são o que mais importamos deles.

Não só pelo comércio Brasil e México têm se aproximado. O furacão Carlos Slim, o riquíssimo dono da Telmex, tem investido pesado também no Brasil. Agora vai até entrar no varejo, pelo Nordeste. Além dele, empresas do porte da Femsa, de bebidas, e Bimbo, de alimentos. Em 2006, foram US$8 bilhões em investimento mexicano no Brasil, sobretudo em telefonia. O número oficial de investimento brasileiro lá é muito menor, de US$500 milhões, mas quem acompanha o assunto acha que há, na verdade, um erro neste valor, pois, ainda que menos concentrado, o Brasil tem investido bastante no México, seja no setor de serviços, indústria ou agricultura.

Os dois países tomaram, literalmente, sentidos opostos na integração regional: enquanto o México se voltou para o Norte - assinando o Nafta -, o Brasil virou-se para o Sul - com o Mercosul. Hoje, para os Estados Unidos, vão cerca de 90% das exportações mexicanas. Além disso, o país tem 42 acordos de comércio, bem diferente do Brasil. Pensar num acordo mais amplo entre México e Mercosul é algo descartado pelos especialistas.

- O México tem interesse em diversificar o destino das suas exportações, hoje altamente concentradas nos Estados Unidos, mas daí a querer ser membro pleno, entrar nas regras do Mercosul, já é outra história - acredita a economista Lia Valls, da FGV.

Contudo, se este acordo não é hoje viável, há uma porta de entrada que está aproximando os dois países: a energia. Foi nela que se concentraram as forças desta viagem presidencial. E há razões fortíssimas para isso. A Pemex, estatal mexicana de petróleo, enfrenta problemas sérios. Tanto quanto à sua produção, quanto às reservas. O México é rico nesta fonte de energia, mas a Pemex não tem recursos suficientes para investir e não domina a tecnologia de prospecção em águas profundas, que a Petrobras conhece bem. Por enquanto, serão apenas estudos. Para a Petrobras poder prospectar lá, será preciso mudar a lei. O etanol é outra chance de troca.

Mas não foi só isso que o presidente Lula foi fazer no México. Aproximar-se de Felipe Calderón - ainda que não agrade à parte da esquerda do governo - ajuda a contrabalançar a forte presença de Hugo Chávez que, cheio de petróleo, anda fazendo ampla política de benefícios no Caribe.