Título: Manobra para blindar Anac
Autor: Lima, Maria
Fonte: O Globo, 09/08/2007, O País, p. 3
Após ganhar Furnas, Eduardo Cunha impede convocação de Denise Abreu na CPI.
A tropa de choque governista jogou pesado ontem e conseguiu impedir que a CPI do Apagão Aéreo da Câmara abrisse uma investigação sobre a denúncia do brigadeiro José Carlos Pereira, ex-presidente da Infraero, contra Denise Abreu, diretora da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Denise é acusada de fazer lobby num negócio milionário de transporte de cargas aéreas que beneficiaria um empresário de Ribeirão Preto amigo dela. Liderados pelo presidente em exercício da CPI, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), petistas rejeitaram a reconvocação do brigadeiro para falar das denúncias feitas ao GLOBO, e impediram a votação dos pedidos de convocação e quebra de sigilo telefônico de Denise Abreu.
Coube a Cunha comandar as manobras. Quando já tinham sido aprovados em bloco quase todos os 41 requerimentos de convocação e quebras de sigilo, ele sacou um requerimento de adiamento das votações para viabilizar a blindagem da diretora da Anac. Com isso, os requerimentos que tratavam de Denise e Ribeirão Preto tiveram de ficar para outro dia. Autor de alguns dos requerimentos, o tucano Gustavo Fruet (PR) pediu que Cunha agisse com seriedade, e lembrou que ele teria que ter apresentado o requerimento no início das votações. Não adiantou. O requerimento foi aprovado por ampla maioria.
- A denúncia de Ribeirão Preto está deixando os governistas de cabelo em pé. Eduardo Cunha não foi honesto. Eles armaram uma rede de proteção para blindar a Denise e algumas pessoas da Anac. Não a ouviremos aqui, mas ela não escapará de falar lá na CPI do Senado - protestou Fruet.
Tucano: "Hoje caiu a máscara"
A sessão, que teve a presença em peso dos integrantes da base do governo, foi criticada pela oposição.
- Hoje caiu a máscara. O Eduardo Cunha foi condescendente com o governo - disse Vanderlei Macris (PSDB-SP), lembrando que Cunha conseguiu a nomeação de Luiz Paulo Conde para a presidência de Furnas.
O deputado Rodrigo Castro (PSDB-MG) mencionou dívida do vice-presidente da CPI com o governo:
- É muito estranho que esse assunto de Ribeirão Preto esteja causando tudo isso. O que uma nomeação em Furnas não é capaz de causar aos ânimos da bancada do governo!
Contra a reconvocação do brigadeiro, o deputado André Vargas (PT-PR) alegou que a oposição estava querendo tirar proveito da mágoa do militar para atacar o governo.
- Não podemos desviar o foco dessa CPI - reagiu Vargas.
Cunha protestou e disse que tinha apresentado o requerimento adiando as votações para não atrapalhar o depoimento do comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, marcado para a sessão seguinte. Mesmo na condição de presidente interino, ele votou contra todos os requerimentos da oposição, junto com a base, mostrando estar completamente afinado com o governo depois da nomeação de Conde.
- Não há blindagem, o que há é o direito legítimo da maioria - disse.
A deputada Solange Amaral (DEM-RJ) lembrou que a CPI já convocou e ouviu as mais altas autoridades da Aeronáutica, inclusive quatro generais, mas quando o assunto é Anac, a tropa de choque se mobiliza fortemente, com o apoio inclusive do relator Marco Maia (PT-RS).
- Por que tanto empenho em blindar a Anac? - protestou Solange.
O ministro da Defesa, Nelson Jobim, não quis comentar as denúncias contra a diretora da Anac.
- Só conheço a notícia de jornal. Nesses casos, sempre ajo como juiz. O que está nos autos do processo é o que vale - disse Jobim.
Hoje a CPI da Câmara ouve o vice-presidente de segurança de vôo da Airbus, Yannick Malinge.
COLABOROU: Cristiane Jungblut