Título: Jobim reclama de espaço reduzido dos aviões
Autor: Jungblut, Cristiane
Fonte: O Globo, 09/08/2007, O País, p. 5

Ministro, de 1,90 metro, determina à Anac estudos para obrigar empresas a redimensionar o interior das aeronaves.

BRASÍLIA. O ministro da Defesa, Nelson Jobim, disse ontem que determinou à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) que faça estudos sobre o espaço interno dos aviões para obrigar as companhias aéreas a aumentar o espaço entre as poltronas. Em depoimento na CPI do Apagão, Jobim disse que, nos últimos anos, para atender ao aumento do número de passageiros, as empresas recorreram a aviões cada vez maiores, mas com espaço interno cada vez mais reduzido. Segundo Jobim, a Anac tem poder de exigir mudanças, mas ele não explicou se isso levaria a um aumento no preço das passagens, com a redução do número de passageiros por vôo.

- Já determinei à Anac a recomposição do espaço vital (entre as poltronas) dos aviões, que se respeite o usuário e não os interesses das empresas de terem mais passageiros nos vôos. Que se tenha um espaço condizente com o tamanho médio dos brasileiros - disse Jobim.

"Tenho uma extraordinária dificuldade de sentar"

Ele reclamou das próprias dificuldades nos aviões:

- Eu, que tenho 1,90 metro de altura, tenho uma extraordinária dificuldade de sentar em qualquer uma das empresas. O espaço vital está absolutamente reduzido.

Jobim reclamou que as empresas reduziram a "espessura dos encostos dos assentos". Disse que a "coluna sente" quando o passageiro atrás coloca um objeto na bolsa que fica nos encostos. Mesmo assim, Jobim disse que a segurança do sistema aéreo está acima do conforto.

O ministro lembrou que a demanda de passageiros foi muito superior ao número de vôos nos últimos anos. Ainda segundo ele, os aviões menores desapareceram do mercado, principalmente na aviação regional. Jobim disse que é obrigação das empresas a manutenção dos equipamentos e a pontualidade dos vôos. Ele disse que, para garantir a pontualidade poderá haver multas vultosas.

- A Anac tem que estabelecer mecanismos de aplicação de pena, inclusive de cassação de concessões. A pontualidade é das empresas e só existe um jeito de ser pontual: multas que sejam economicamente eficazes.

As empresas dizem que a redução das poltronas é uma tendência mundial. Ontem, a TAM informou que, no segundo semestre do ano passado, aumentou o número de assentos nos Airbus A-319 e A-320, ao substituir o encosto das poltronas por modelos de menor espessura. Foram acrescentados seis lugares em cada aeronave. A capacidade do A-319 foi de 138 para 144 passageiros e a do A-320, de 168 para 174. A companhia lembra que qualquer alteração no interior dos aviões é homologada pelo fabricante da aeronave e pelos órgãos reguladores.

No site da TAM consta que 82,55 centímetros separam as poltronas no Airbus A-319, que faz a ponte aérea Rio-São Paulo. É menos da metade do espaço entre as fileiras na classe executiva do Airbus A-330: 1,95 metro. A Gol não se pronunciou.

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Potencial vítima da chamada "síndrome da classe econômica" - doença circulatória que acomete pessoas submetidas a espaços exíguos por longos períodos -, o ministro Nelson Jobim, com 1,90m de altura, alertou para a tendência das companhias aéreas brasileiras de reduzirem seu espaço interno para aumentar a margem de lucro. De fato, as duas principais empresas do país, a Gol e a TAM, elegeram a cadeira do passageiro como um dos principais itens para enxugar custos. Há um ano, ambas anunciaram mudanças na configuração de suas aeronaves com este objetivo.

Enquanto companhias estrangeiras como a Air France investem em mais espaço em suas aeronaves e não dispensam a primeira classe em seus vôos - categoria que saiu de linha nas empresas brasileiras -, a TAM investe na tecnologia para modelos de assentos anatômicos, mais finos e compactos, o que resulta em mais cadeiras por avião.

No início da década, a British Airways e a American Airlines começaram a mudar a configuração dos aviões para dar mais espaço aos passageiros. Com o 11 de Setembro, e a conseqüente queda no número de usuários, as empresas tiveram que investir para reconquistar clientes, e oferecer conforto foi uma das apostas. A British Airways passou a oferecer uma quarta classe de assentos em seus vôos, a World Traveller Plus, uma intermediária entre a executiva e a econômica, destinada a quem viaja freqüentemente, geralmente, a trabalho. A cabine tem poltronas maiores e mais espaço para os passageiros esticarem suas pernas, tomadas individuais para computador e telefone em cada poltrona. O bilhete custa o referente à tarifa econômica cheia. E a classe executiva ganhou poltronas que podem ser totalmente reclinadas, transformando-se em camas de 1,80m. As mudanças foram resultado de pesquisas feitas pela companhia aérea com passageiros.

A idéia de oferecer mais espaço na classe econômica também foi adotada pela American Airlines e, mais recentemente, pela Air France, que no início deste ano lançou a classe econômica-plus, com mais espaço e 95% dos assentos com vídeo, em alguns dos seus vôos internacionais.