Título: Mesmo com arrecadação mensal de R$270 milhões, Infraero dá prejuízo
Autor: Doca, Geralda
Fonte: O Globo, 12/08/2007, O País, p. 4
Estatal já recebeu ajuda de R$350 milhões do governo federal este ano.
BRASÍLIA. Mesmo com uma capacidade excepcional de gerar caixa, a Infraero, que administra os mais importantes aeroportos do país, dá prejuízo. Por mês, são R$270 milhões em receitas arrecadadas com tarifas de embarque, pouso de aeronaves, armazenamento e envio de cargas e aluguel de lojas e espaço publicitário. Mesmo assim, a estatal precisou da ajuda do governo federal, pela segunda vez, no valor de R$350 milhões para evitar a paralisação de obras nos aeroportos neste ano. A estatal opera no vermelho já há dois anos consecutivos.
Técnicos do setor questionam: como uma empresa que fatura R$2,2 bilhões por ano não consegue ter lucros? Em 2001, por exemplo, com 74 milhões de passageiros viajando de avião, a Infraero teve lucro de R$143 milhões. Ano passado, apesar dos aeroportos terem registrado movimento de 102,2 milhões de usuários, o que significou mais vôos e portanto, mais ganhos com tarifas, houve prejuízo de R$135,3 milhões. Em 2005, o resultado negativo foi ainda maior, de R$458,1 milhões.
Gastos com pessoal aumentam nos últimos anos
Apesar da derrocada da Varig, que obrigou a Infraero a reconhecer uma dívida de R$185,4 milhões ano passado, dados do balanço revelam que o desequilíbrio das contas da estatal tem outras causas. Um exemplo é o aumento dos gastos com a folha de salários, que passou de R$451,2 milhões em 2001 para R$793,3 milhões em 2006 - quase o dobro.
Após recuar em 2002, devido a plano de demissão voluntária adotado no segundo mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, os gastos com pessoal registraram trajetória ascendente nos anos seguintes. O número de funcionários subiu de 8.300 em 2001 para 10.650 neste ano e de terceirizados, de 13,8 mil para 16 mil em 2007. "As despesas com pessoal cresceram 19,3%, principalmente em decorrência das promoções concedidas, da contratação de funcionários e anistiados e do reajuste salarial. Os dispêndios com serviços de terceiros aumentaram 6,2%", diz nota do balanço de 2006.
Para ex-dirigentes, problema da empresa é de gestão
Dirigentes que comandaram a Infraero afirmam que o problema da empresa é de gestão. Além de ceder à pressão do governo para ajudar na economia de juros da dívida pública, houve inchaço da máquina, com aumento dos contratos especiais, com salários elevados. Também criticam os investimentos sem critérios nos aeroportos e levantam suspeitas sobre o superfaturamento de obras.
- O modal aéreo é o único segmento carimbado em que as receitas são aplicadas exclusivamente nos aeroportos, mas esse dinheiro está sendo desviado para outros fins - disse um ex-diretor, citando convênio da Infraero com a Embratur no valor de R$35 milhões para incentivar o turismo e o aumento das despesas com pessoal.
Embora admitam a necessidade de corte de custos, técnicos da Infraero argumentam que a estatal teve prejuízos porque precisou de aportes de recursos da União no valor de R$700 milhões. Ao ser investido em bens da União (os aeroportos), explicou essa fonte, esse valor entra no balanço como despesa, não sendo, portanto, incorporado ao ativo, como seria numa empresa comum.