Título: Em jogo, 170 cargos e verbas para área social
Autor: Otavio, Chico e Menezes, Maiá
Fonte: O Globo, 12/08/2007, O País, p. 10
PMDB do Rio vai disputar espaço com petistas, que influenciam fundos de pensão da estatal.
A indicação do ex-prefeito Luiz Paulo Conde para a presidência de Furnas provocará um realinhamento das forças políticas na empresa. Embora o atual presidente, José Pedro Rodrigues de Oliveira, seja ligado ao PMDB mineiro - grupo diferente do PMDB de Conde -, o PT também exerce forte influência na estatal, principalmente nas estratégicas áreas de previdência e assistência social. Nessas áreas, o poder não se resume apenas a gerir cifras milionárias. Também estão em jogo cerca de 170 cargos cujo acesso não depende de concurso público.
Um dos setores marcados pela influência petista é a Caixa de Assistência dos Empregados de Furnas e Eletronuclear (Caefe). A entidade foi criada em 2000, depois que a Secretaria de Previdência Complementar proibiu fundos de pensão como a Real Grandeza, de Furnas, de continuar oferecendo aos participantes benefícios na área de assistência social, como seguros de vida e cesta básica.
Mas a Caefe não representa apenas assistencialismo. A entidade também repassa recursos para os sindicatos vinculados à Associação dos Empregados de Furnas (Asef), uma espécie de intersindical que abriga 11 entidades de engenheiros e eletricitários. Há dois anos, por exemplo, foi o dinheiro da Caefe que permitiu a realização do encontro nacional dos empregados de Furnas em Minas Gerais.
Sindicalistas contribuíram para campanhas petistas
Levantamento sobre as atividades desses sindicatos mostra que os vínculos ao PT vão além da ideologia. Em 26 de outubro do ano passado, a três dias do segundo turno, quando as privatizações se tornaram o tema principal da disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin, a Asef promoveu um "abraço a Furnas" alertando, na convocação, que "uma das candidaturas representa os interesses do mesmo grupo que já tentou privatizar Furnas num passado recente". Sites de alguns dos sindicatos vinculados à Asef reforçam o engajamento dessas entidade no projeto político do PT.
A Caefe, contudo, não gera recursos próprios. Seu patrimônio depende dos aportes financeiros de Furnas. Auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) constatou ilegalidade em repasses no total de R$ 27,8 milhões à Caefe entre 2002 e 2005.
O aparelho sindical não apenas de beneficia, mas está no comando da Caefe. Seu presidente, Marcos Henrique Souza de Magalhães, foi diretor do Sindicato dos Eletricitários do Rio de Janeiro (Sintergia-RJ). Ele pertence ao grupo político de Alderízio Catarino, outro ex-dirigente do Sinergia influente em Furnas, onde ocupa o cargo de assistente da Diretoria de Gestão Corporativa.
Marcos e Alderízio, além da origem sindical, têm em comum a simpatia pelo mesmo político. Ambos aparecem no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) como doadores da campanha à reeleição, no ano passado, do deputado federal Jorge Bittar (PT-RJ). Dos 11 sindicatos, dirigentes de cinco também contribuíram para campanhas petistas. Num deles, o Sindicato dos Engenheiros de Minas Gerais, quatro diretores doaram para o PT. Há casos em que os próprios diretores, licenciados, disputaram a eleição.
O deputado Jorge Bittar nega ingerência política em Furnas. Ele afirma que de fato conhece Marcos Henrique e Alderízio, mas por causa da atuação sindical deles.
- Eu conheço muita gente em Furnas, mas não tenho ingerência alguma sobre a estatal, que é dominada pelo PMDB, ao qual o atual presidente é ligado. Eu não indiquei o Marcos Henrique e também nada tenho a ver com a Fundação Real Grandeza. Não sei sequer quem é o presidente. E não sei o que tem demais no fato de ter recebido doações dele - disse o deputado.
Alderízio Catarino dos Santos não quis comentar as informações. Furnas também afirmou que não comentaria.
Marcos Henrique não nega o repasse de recursos da Caefe a entidades sociais, mas negou o uso político dessas verbas. Segundo ele, além de financiar seminários, o dinheiro serviu para promover atividades esportivas e festas exclusivamente para participantes do sistema:
- Pagamos festa junina, jogos de futebol e despesas com hospedagem e alimentação de encontros dos empregados de Furnas. Não sei bem o valor, mas é coisa pequena.
Deputado aconselha auditoria em Furnas
Há dois anos, outro dirigente sindical indicado pelo PT deu dor de cabeça a Furnas. Rodrigo Botelho Campos, então diretor de Gestão Corporativa, foi acusado de indicar uma corretora para fazer o resseguro de Furnas sem embasamento técnico. A denúncia foi investigada pela CPMI dos Correios.
O deputado federal Carlos Willian (PTC-MG), aliado de Eduardo Cunha, dá um conselho a Conde.
- Esta nova diretoria vai ter que fazer mudanças fundamentais em todas as estruturas. Principalmente na estrutura do plano de previdência. É preciso que haja um grau de transparência maior. Não conseguimos ter acesso aos dados. É como uma caixa-preta. O novo presidente deve fazer uma auditoria nas contas - disse o deputado. (C.O. e M.M.)