Título: Furnas vive incerteza com chegada de Conde
Autor: Otavio, Chico e Menezes, Maiá
Fonte: O Globo, 12/08/2007, O País, p. 10

Funcionários temem novas indicações políticas do grupo de Eduardo Cunha para postos-chave na empresa.

Um encontro promovido pela área de Recursos Humanos de Furnas exibiu, sexta-feira passada, o clima de incerteza que tomou conta dos funcionários após a indicação do ex-prefeito Luiz Paulo Conde para a presidência da empresa. O atual presidente, José Pedro Rodrigues de Oliveira, aproveitou o evento, no Jockey Club, no Centro do Rio, para o discurso de despedida. A grande dúvida dos presentes é descobrir os nomes que Conde, cota do PMDB e integrante do grupo do deputado federal Eduardo Cunha, levará para os postos-chave da estatal.

Estão em jogo cifras milionárias. Só a Fundação Real Grandeza, fundo de pensão da empresa, gere cerca de R$4 bilhões em ativos. A troca - o nome do novo presidente será confirmado na quarta-feira, em assembléia convocada pelo conselho de administração de Furnas - ocorrerá no momento em que a empresa prepara o processo de licitação da Usina de Santo Antônio, no Rio Madeira, obra orçada em R$28 bilhões.

O temor dos funcionários é que se repita com a Real Grandeza o que ocorreu com a Prece, fundo de previdência da Cedae. O grupo político que atuava na estatal fluminense também era ligado a Eduardo Cunha. Durante o governo Rosinha Garotinho (2002-2006), o secretário estadual de Meio Ambiente, a quem a Cedae é vinculada, era Conde. Auditoria contratada pelo conselho deliberativo do fundo este ano constatou aplicações "temerárias" cometidas pela Prece em 2006. Em uma delas, foram aplicados R$74 milhões em uma corretora com um ativo de R$80 milhões e um passivo de R$326 milhões.

Ex-presidente da Cedae cotado

O presidente da Cedae no primeiro semestre de 2006 foi Aluizio Meyer. Funcionário de carreira de Furnas, foi diretor financeiro da Real Grandeza. E está cotado para comandar o fundo de previdência, na gestão de Conde. O engenheiro não retornou as ligações do GLOBO. Conde disse, por sua assessoria, que só trata de nomes para as diretorias depois de sua posse.

Meyer fez parte de um ciclo de oito anos de gestão peemedebista - com oito meses de atuação petista - na Cedae. Segundo o conselho fiscal da estatal, nesse período a Prece teria adquirido um déficit de R$340 milhões. A empresa, em seu site, nega que seja deficitária. Nenhum dirigente foi encontrado para comentar os dados. O fundo foi alvo de investigações da CPI dos Correios e do Tribunal de Contas do Estado (TCE). Foi identificado um rombo de R$309 milhões entre 2000 e 2005.

As gestões de Eduardo Cunha foram decisivas para a escolha de Conde pelo presidente Lula. Relator da emenda que prorroga a CPMF, ele foi acusado pela oposição de pressionar o governo com uma manobra legislativa, em troca da nomeação do aliado peemedebista. Mas Cunha agora nega que vá indicar nomes para a futura diretoria da Real Grandeza:

- Não indiquei ninguém e nem pretendo. Já participei da indicação do Conde e ponto. Ele tem liberdade para achar quem vai trabalhar com ele.

Economista, Cunha ingressou na vida pública como integrante da tropa de choque do ex-presidente Fernando Collor de Mello. No governo Lula, passou os quatro primeiros anos fazendo oposição, ao lado dos ex-governadores Rosinha e Anthony Garotinho. Até então, seu nome só era notícia quando associado a denúncias de mau uso de recursos públicos. Com o casal Garotinho fora da cena política, ele ganhou ares de protagonista. É o presidente interino da CPI do Apagão Aéreo e se tornou um dos principais interlocutores do governo na Câmara.