Título: 'A incoerência faz parte do jogo político'
Autor: Aggege, Soraya
Fonte: O Globo, 12/08/2007, O País, p. 14

Com os dois mandatos do presidente Lula, o país tem novas elites?

LEÔNCIO MARTINS RODRIGUES: Aumentou a participação das classes médias no poder. Antes da ascensão de Lula, muitos ex-diretores de sindicatos já tinham sido eleitos para cargos importantes no Executivo e no Legislativo. O sindicalismo já era trampolim para a política. O que ocorreu com a vitória de Lula e a expansão do PT foi o crescimento, nas estruturas de poder, de um pessoal originário das classes médias assalariadas de escolaridade média ou alta. Mas nem todos os sindicalistas foram ao poder e nem todo o poder foi para os sindicalistas. Do mesmo modo, nem todos os políticos de classe média subiram politicamente por meio do PT. Houve um processo geral de "popularização" das estruturas de poder e redução do espaço das "elites". Setores das classes médias e baixas ascenderam, como pastores pentecostais, que, aliás, não se saíram bem nas eleições de 2006. Há um setor empresarial de formação recente que enriqueceu, apóia o governo e ocupa posições na máquina governamental.

O senhor diz que as eleições de 2002 acentuaram a popularização da classe política. Depois disso , houve reeleição. Essa popularização tem se acentuado?

RODRIGUES: Possuo informações sobre composição sócio-ocupacional da Câmara dos Deputados eleita em 1998 e 2002. Não terminei o levantamento para resultados de 2006. Entretanto, com base em outras fontes, há evidências de que o movimento de "popularização" continua. Nem haveria motivos, tanto sociais como políticos, para que assim não fosse. Três governadores eleitos pelo PT passaram pelo sindicalismo: Jaques Wagner, na Bahia, Wellington Dias, no Piauí, e Ana Júlia Carepa, no Pará. É improvável que o jogo político, em sociedades de massa, possa ser controlado diretamente pelas classes endinheiradas, e os políticos possam menosprezar outros grupos de interesse e certas demandas da população. Parece-me mais provável, se o país se mantiver no rumo democrático, que aos poucos se consolidará uma classe de políticos profissionais com o poder econômico atuando por meio de lobbies e outras formas de atuação.

O discurso do governo sobre elites privilegiadas que reclamam tem coerência?

RODRIGUES: Do ponto de vista do rigor lógico, nenhuma. Ora o presidente afirma que governou para as elites, que elas jamais ganharam tanto dinheiro como em seu governo, ora ataca as elites. Mas a incoerência faz parte do jogo político. Cada um retira o que deseja das falas governamentais e de seu partido. Ao atacar as elites de modo abstrato, o presidente tenta agradar ao "povão" e se livrar de responsabilidades pelo que de negativo ocorre em seu governo. Ao agradar às classes ricas, ou seja, à elite concreta, o presidente procura se mostrar "responsável" e ganhar seu apoio.