Título: Ao atacar a elite, Lula tenta agradar ao povão
Autor: Aggege, Soraya
Fonte: O Globo, 12/08/2007, O País, p. 14
CONTRADIÇÕES PETISTAS: Cientista político afirma que aumentou a participação das classes médias no poder
O cientista político Leôncio Martins Rodrigues é um estudioso do movimento sindical e dos partidos brasileiros há mais de 40 anos. Desde a eleição do presidente Lula e da conseqüente expansão do PT, diz ele, tem havido uma espécie de elitização de grupos originários das classes médias assalariadas que chegaram ao poder. Para ele, Lula, ao atacar as elites, tenta agradar ao "povão" e se livrar de responsabilidades.
Como podemos classificar elite no Brasil de hoje? Pelo poderio econômico, poder de decisão, pela influência política?
LEÔNCIO MARTINS RODRIGUES: Não seria possível, aqui, uma discussão mais detalhada do assunto. Para não complicar: se seguirmos a definição de Pareto (1848-1923), um dos principais "teóricos das elites", teríamos muitas elites, compostas pelos melhores em cada esfera da atividade humana. Poderia haver, assim, uma elite de empresários, de políticos, de acadêmicos, de músicos etc. Seriam os "melhores". Habitualmente, de modo pouco preciso, se fala das elites como sendo as classes altas. Segundo os teóricos das elites, a divisão básica da sociedade seria entre a elite governante e a massa governada.
Em que essa visão se distingue da abordagem marxista?
RODRIGUES: Os teóricos das elites entendem que uma separação básica entre o pequeno grupo governante e a massa governada tenderia a existir sempre. A história da Humanidade não seria a história da luta de classes, como queria Marx, mas a história da luta entre elites e da circulação no poder entre elas. Os marxistas, é claro, não aceitam a teoria das elites. Para eles, as massas seriam o sujeito da História. No socialismo haveria igualdade entre os homens. Não haveria uma classe dominante e outra dominada e explorada. Contudo, o leninismo é uma teoria das elites, no sentido de atribuir a uma elite, o partido revolucionário, o papel de direção do proletariado e de construção da "nova sociedade".