Título: Operação conjunta
Autor: Rosa, Bruno e Scofield Jr., Gilberto
Fonte: O Globo, 11/08/2007, Economia, p. 37

BCs voltam a intervir no mercado. Em dois dias, injeção de recursos passa de US$300 bi.

Os mercados globais voltaram a ser sacudidos ontem pelo temor dos investidores com a crise de crédito. Houve nova intervenção dos bancos centrais, desta vez reforçada por Japão e Austrália. Todas as bolsas de valores fecharam em baixa ¿ à solitária exceção do índice S&P, que reagiu à intervenção do Federal Reserve (Fed, o BC americano) e ficou estável, com alta de apenas 0,04%. Em 48 horas, os BCs das economias industrializadas colocaram cerca de US$300 bilhões no sistema financeiro ¿ o que equivaleria a aproximadamente US$6 bilhões por hora.

Seguindo a tendência mundial, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) fechou em queda de 1,48% aos 52.638 pontos, em seu menor valor desde o início de junho. Em seu pior momento, o índice de ações amargou perdas de 3,27%. Na semana, o pregão registra perdas de 0,5%. Segundo dados da Bovespa, a crise no setor de crédito já revela forte saída de investidores estrangeiros do país. Em julho, foram retirados cerca de R$3,2 bilhões. Até 3 de agosto, o saque já alcança quase R$900 millhões. No acumulado do ano, cerca de R$4,2 bilhões deixaram o país.

Com a aversão a risco e a conseqüente saída de investidores do país, o dólar subiu 1,29% ontem, a R$1,951. Na semana, a divisa acumula alta de 2,84%. Por outro lado, o risco-Brasil recuou 1,06%, para 185 pontos centesimais. Na semana, a queda é de 15,9%.

Continuou a forte procura pelos títulos do Tesouro americano, os mais seguros do mundo. Com isso, os ganhos recuaram 0,29%. Os papéis com vencimento em dez anos registraram rentabilidade de 4,77% ao ano.

Para analista, situação é temporária

Seguindo o exemplo, na véspera, do Fed e do Banco Central Europeu (BCE), o Banco do Japão injetou ontem 1 trilhão de ienes (US$8,4 bilhões) no sistema bancário, com medo de que as instituições tivessem dificuldades para pagar investidores. Já o BC australiano colocou à disposição do sistema bancário US$4,2 bilhões em empréstimos.

O BCE ofereceu ontem aos bancos 61,05 bilhões (US$83,61 bilhões), menos que os 94,8 bilhões (US$130,81 bilhões) da quinta-feira. A instituição disse ainda que continua monitorando as condições do mercado. Já o Fed injetou US$38 bilhões, em três operações, a maior operação do tipo desde 19 de setembro de 2001, após os atentados terroristas. Isso reduziu as perdas em Wall Street: o Dow recuou 0,23%, contra quedas de mais de 3% na Europa.

¿ Este é um mercado emocional, e uma série de eventos pode ocorrer no fim de semana e pesar nas bolsas semana que vem ¿ disse Joseph Saluzzi, co-diretor da Themis Trading.

O Banco do Canadá ofereceu aos bancos bancário do país 1,5 bilhão de dólares canadenses (US$1,4 bilhão), valor pouco abaixo da véspera, e afirmou que ¿vai garantir a liquidez do sistema financeiro canadense¿.

Os mercados asiáticos sentiram ontem o baque das quedas em EUA e Europa na véspera e fecharam com expressivas baixas. A Bolsa de Seul teve sua maior queda em três anos: 4,2%. A Bolsa do Japão caiu 2,37% e a da Austrália, 3,6% ¿ a maior desde setembro de 2001. O medo na Ásia é que a deterioração do crédito nos EUA, aliada a taxas mais altas de inflação em muitos países, com a conseqüente elevação dos juros, ponha fim à fase de dinheiro barato e farto no mercado internacional.

Para Alexandre Schwartzman, economista para América Latina do ABN Amro, os BCs voltarão a intervir no mercado na próxima semana. Ele, porém, frisa que não haverá interrupção no fluxo estrangeiro para o Brasil:

¿ Vejo isso como uma situação temporária. Os bancos estão reavaliando os riscos em todo o mundo. Ao fazer essa nova análise, o crédito fica mais caro, e menos gente está disposta a entrar. A verdade é que a nossa composição de dívida nos coloca em uma posição boa para enfrentar tudo isso, por isso nosso risco-país subiu pouco mais de 28% desde março, bem menos que o da Argentina, por exemplo, que já dobrou no período.

Já Brad Brandt, analista da EPFR, acredita que os emergentes vão continuar sofrendo enquanto a aversão a risco estiver alta. Segundo ele, os investidores internacionais não estão olhando para os fundamentos da economia dos países quando vendem os papéis de nações como o do Brasil:

¿ Se a essa crise persistir por muito tempo, haverá impacto no consumo e nos negócios dos EUA.

Segundo Newton Rosa, economista-chefe da SulAmérica, as agências de classificação de risco erraram na avaliação dos ativos que compõem os fundos, devido à forte liquidez mundial. Por isso, explica, tudo está sendo reavaliado agora, para não haver risco de contaminação na economia real.

SEC investiga bancos de investimento

Depois de o banco francês BNP Paribas ter congelado, quinta-feira, saques em três de seus fundos, o susto ontem veio do Deutsche Bank. Um de seus fundos, o DWS, informou ter perdido 30% só este mês, recuando de 3 bilhões em ativos para 2,1 bilhões. Mas o Deutsche Bank afirmou que não vai suspender os saques no fundo e ressaltou não ter investimentos em hipotecas de alto risco (subprime).

Mas o também alemão IKB está sendo investigado pelas autoridades do país. O IKB alertou para a falta de caixa esta semana, o que provocou uma operação de resgate por outros bancos alemães.

Nos EUA, a Securities and Exchange Commission (SEC, o órgão regulador do mercado) decidiu analisar os balanços dos maiores bancos de investimento de Wall Street, como Goldman Sachs e Merrill Lynch, a fim de saber se estes podem estar escondendo perdas no mercado subprime. Segundo fontes, a SEC quer saber se os bancos estão calculando os valores dos ativos ligados a subprime em seus balanços da mesma forma como calculam esses valores para seus clientes.

As ações da Countrywide Financial, maior empresa hipotecária privada dos Estados Unidos, caíram 13,8% ontem depois de ela ter avisado que está sofrendo os efeitos da atual crise do crédito. O que mais assustou os investidores foi a empresa ter dito não ser capaz de assegurar financiamento suficiente para manter o mercado. Este ano cerca de 50 empresas da área de hipotecas nos EUA já pediram concordata. Ontem foi a vez da HomeBanc.

(*) Correspondentes, com agências internacionais

LANGONI: BC BRAS