Título: Coisas muito assustadoras
Autor: Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 11/08/2007, Economia, p. 39

Em setembro de 1998, o colapso do fundo hedge Long Term Capital Management, provocou uma crise nos mercados financeiros similar à de hoje. Na ocasião, participei de um seminário de um representante do Federal Reserve, que falou do péssimo estado dos mercados. ¿O que podemos fazer?¿, perguntou um participante. ¿Rezar¿, respondeu o funcionário do Fed.

Nossas preces foram atendidas. O Fed coordenou um resgate, enquanto Robert Rubin, então secretário do Tesouro, e Alan Greenspan, que presidia o Fed, asseguravam aos investidores que tudo ficaria bem. E o pânico se dissipou.

Na quarta-feira, o presidente Bush, exibindo seu vocabulário de MBA, também tentou acalmar os mercados. Mas Bush, digamos, carece de credibilidade.

O que aconteceu nos mercados financeiros nos últimos dias é algo que realmente assusta economistas monetaristas: a liquidez secou. Isso pode vir a ser apenas um breve susto. Na pior das hipóteses, porém, pode provocar uma reação em cadeia de calotes.

As origens da atual crise estão nas loucuras financeiras dos últimos anos, que hoje parecem tão irracionais quanto a mania pontocom.

Todos sabem agora sobre a explosão nos empréstimos subprime, que permitiu a pessoas sem as usuais qualificações financeiras comprarem casas, e sobre o anseio com que os investidores compraram títulos lastreados nesses empréstimos. Mas os investidores também pularam em títulos corporativos de alto risco, os junk bonds.

Então a realidade bateu. Primeiro, a bolha imobiliária estourou. Aí o subprime virou pó. Então disparou o nervosismo dos investidores com os junk bonds.

Quando a liquidez seca, pode haver uma reação em cadeia de calotes. A instituição financeira ¿A¿ não pode vender seus papéis lastreados em hipotecas, então não obtém dinheiro para pagar o que deve a ¿B¿, que não paga ¿C¿ ¿ e quem tem dinheiro senta nele, porque não confia que os outros paguem o empréstimo.

E eis algo realmente assustador sobre crises de liquidez: é muito difícil para as autoridades agirem. O Fed normalmente corta as taxas de juros ou empresta dinheiro aos bancos. Mas, quando a liquidez seca, essas ferramentas perdem muito de sua eficácia. Reduzir o custo do dinheiro é inútil se ninguém quer emprestar.

Há outras coisas, mais exóticas, que o Fed e o Executivo poderiam fazer para conter a crise. Mas, por diversas razões, uma delas o histórico de incompetência do governo, não falaremos disso.

Esperemos, então, que essa crise acabe tão rapidamente quanto a de 1998. Mas eu não contaria com isso.

PAUL KRUGMAN é colunista do ¿New York Times¿