Título: O jogo do Mercosul com Chávez
Autor: Saraiva, Miriam Gomes
Fonte: O Globo, 16/08/2007, Opinião, p. 7

Desde 2005 que as relações da Argentina com a Venezuela entraram em um novo patamar. Se até então havia ensaios de aproximação e recuos, a partir de outubro deste ano a opção venezuelana se impôs de forma clara. Mas essa aliança começa a mostrar problemas, e a candidata Cristina Kirchner passa a dar alguns sinais de querer se "desmarcar" desta parceria.

A ascensão de Néstor Kirchner trouxe um novo panorama para a política externa argentina, e a Venezuela passou a ocupar um novo lugar no arco de suas alianças. A ascensão de Lula e Kirchner abriu espaços para a construção de uma parceria mais sólida no campo político entre Brasil e Argentina, mas seria uma aliança ainda a se construir e difícil por se tratar de uma relação assimétrica onde as partes não tinham nem têm claro o peso que cada uma delas pode ocupar.

O governo de Lula assumiu uma política incisiva de construção de uma liderança na região, e essa política proativa entrou em choque com percepções nacionalistas no interior da Argentina que a identificaram como imposição de uma liderança individual do Brasil. Frente a isto, setores da diplomacia argentina buscaram colocar o país como um parceiro alternativo ao Brasil, adotando um perfil próprio na região e desafiando os esforços brasileiros de construção de uma liderança regional autônoma.

Neste contexto, o esforço de Chávez de construir uma aliança regional diferente - a aliança bolivariana - foi visto por setores da diplomacia argentina que temem a ascensão brasileira como uma oportunidade especial de reformular o equilíbrio no interior do Mercosul e da América do Sul em geral. O governo de Hugo Chávez mostrou uma disposição de assumir um papel de paymaster que a diplomacia brasileira vinha evitando.

A Cúpula das Américas (outubro/2005) foi o início das relações "estratégicas" entre os dois países. De certa forma, as cartas estavam já dadas, e a entrada da Venezuela no Mercosul, de uma forma particular - onde os direitos políticos antecedem a adequação econômica -, foi acelerada a partir desse momento.

No interior do governo argentino existem diferentes visões do papel da Argentina na América do Sul e diferentes interpretações sobre o papel que o Brasil deve jogar no arco de suas relações exteriores, mas, em termos mais gerais, coincidem propondo um comportamento da Argentina como um Estado barganhador na esfera regional. Nos círculos próximos ao presidente Kirchner, uma "aliança estratégica" com a Venezuela apareceu como um mecanismo equilibrador da liderança brasileira, que aumentaria o poder de barganha da Argentina. A política externa de Kirchner se orienta para conseguir insumos para o desenvolvimento do país, sem cálculos de mais longo prazo. Internamente, Kirchner adotou uma estratégia neodesenvolvimentista, buscando recompor o parque industrial nacional que se refletiu nas percepções do Mercosul.

A aproximação da Argentina com a Venezuela, por um lado, traz algumas vantagens. Mantém as iniciativas de compra de títulos da dívida da Argentina por parte do governo venezuelano; abre a perspectiva de uma integração energética tão premente para a região; e levanta a possibilidade de se estruturar o banco de investimentos para a América do Sul, criando expectativas de avanços econômicos. Mas, por outro lado, cria também problemas e coloca custos para a diplomacia argentina.

Internamente, para corrente mais progressista dentro do governo, que defende o reforço de um Mercosul mais social e político, defende a idéia de se construir uma aliança mais permanente no interior do bloco e identifica a verborragia de Chávez, seu antiimperialismo e enfrentamentos com Brasil como uma dimensão equivocada de um projeto de integração latino-americana. Os desafios de Chávez a certos princípios tradicionais dos regimes democráticos (embora ele tenha sido eleito através do voto) causa mal-estar em parceiros intrabloco (ver o caso do Senado brasileiro) e extrabloco.

Setores empresariais argentinos começam a demonstrar temor que essa aliança afaste do país investidores mais tradicionais. A primeira cúpula entre Brasil e União Européia chamou a atenção. Como motivo para este encontro pode-se apontar o papel ativo que o Brasil vem adotando em temas internacionais, com particular destaque à Rodada de Doha. Mas a este motivo se somou o problema de Chávez na dimensão política do bloco. A UE não quer dialogar com o Mercosul (com Chávez) enquanto a situação na Venezuela segue como está. O diálogo político UE-Mercosul está então temporariamente travado. Reunir-se com a diplomacia brasileira pode servir à UE como fórum de discussão da OMC, mas serve também para discutir o Mercosul e como lidar com o governo Chávez. Desta vez, a Argentina ficou de fora.

Com esse problema na agenda externa, a candidata ao governo argentino, Cristina Kirchner, busca se afastar da figura de Chávez. Não enfrentá-lo nem desprestigiá-lo, já que ele vem mostrando apoio aberto à sua candidatura, e viajou recentemente à Argentina para a assinatura de acordos de cooperação energética e financeira. Mas busca marcar sua independência e se afastar de suas declarações antiamericanas, dos estragos causados pela entrada ilegal de funcionário venezuelano com mala de dinheiro não-declarado em Buenos Aires, e esvaziar o caráter político da visita de Chávez ao país. Eleitoralmente, esse comportamento deve lhe trazer frutos. Mas, uma vez eleita, sua agenda externa em relação à Venezuela ainda é uma incógnita.

MIRIAM GOMES SARAIVA é professora de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.