Título: Dólar rompe R$2
Autor: Frish, Felipe
Fonte: O Globo, 16/08/2007, Economia, p. 23

TREMOR GLOBAL

Bancos compram moeda e pressionam cotação, segundo analistas. Bolsa cai 3,19%.

Pela primeira vez desde 14 de maio, o dólar comercial fechou acima de R$2. Em mais um dia de turbulência nos mercados financeiros mundiais, devido à crise no setor de hipotecas de alto risco nos EUA, a moeda subiu 2,27% e fechou a R$2,03. Segundo operadores, a valorização ocorreu devido à compra de dólares por parte dos bancos, que vinham apostando na queda da moeda. De fato, o movimento foi de poucos investidores: o volume de negócios no dia ficou pouco acima de US$1,5 bilhão, enquanto costuma passar de US$4 bilhões. Pelo segundo dia consecutivo, o Banco Central não fez leilão de compra de dólares. Desde 23 de julho, nível mais baixo da moeda americana desde setembro de 2000 (R$1,842), a alta já é de 10,21%.

Acompanhando a alta do dólar, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) caiu 3,19% e fechou abaixo dos 50 mil pontos: o Ibovespa, principal indicador da bolsa, encerrou o dia aos 49.229 pontos, a menor pontuação desde 27 de abril. Desde o início da crise, o índice já caiu 15,08% e, na semana, 6,37%.

Segundo analistas, a queda foi puxada pela forte saída de estrangeiros. Ontem, afirmam, seria o último dia de agosto para os investidores de alguns fundos externos - especialmente americanos - pedirem resgate de seu dinheiro. Freqüentemente, fundos que aplicam em mercados voláteis, como o de ações, têm carência para saques.

- O investidor precisa pedir o resgate até o dia 15 para receber no fim do mês. Alguns fundos têm prazos até maiores, de seis meses a um ano - explica Saulo Sabbá, diretor de gestão da Máxima Asset Management.

O prazo serve para o gestor ter tempo de vender os ativos da carteira sem empurrar o seu valor ainda mais para baixo, especialmente em períodos de baixa liquidez. Além disso, desestimula saques excessivos.

A pressão foi tanta que a Bovespa encerrou o dia com volume recorde, R$18,404 bilhões, e de negócios, 285.232. O montante inclui R$5,201 bilhões movimentados pelo vencimento do exercício de opções de índice. O saldo de investimentos estrangeiros na Bovespa nos dez primeiros dias de agosto está negativo em R$1,595 bilhão, segundo balanço da Bolsa. No ano, o saldo ainda está positivo em R$20,796 bilhões, considerando a participação dos estrangeiros em ofertas públicas.

O risco-Brasil subiu 2,54%, para 202 pontos. Para analistas, o problema não está nos ativos brasileiros.

- A única explicação para o mercado aqui estar tão ruim, e caindo mais do que lá fora, é a liquidez que nossas ações têm. Os investidores optam por vendê-las por ser mais fácil. Elas acabam, por isso, se prejudicando nesse processo de redução de exposição a riscos mundiais. Os resultados das empresas têm sido bons aqui - diz o analista de renda variável Fábio Cardoso, da Máxima Asset.

BC americano empresta US$7 bilhões a bancos

As bolsas das principais economias do mundo também fecharam em baixa. Dessa vez, o humor dos investidores foi afetado por uma mudança na recomendação dos papéis da Countrywide - a maior instituição de crédito imobiliário dos EUA. A agência de classificação de risco Merril Lynch alterou a recomendação de compra para venda das ações, aumentando o temor de quebra da empresa e um possível efeito cascata no mercado de hipotecas americano.

Nem a injeção de US$7 bilhões do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, conseguiu conter a fuga de investidores. O índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, fechou em queda de 1,29%, alcançando 12.861 pontos. Foi a primeira vez desde 25 de abril que o indicador fechou abaixo dos 13 mil pontos. Na Ásia, Jacarta, na Indonésia, apresentou a maior queda (6,44%) e a Bolsa de Tóquio caiu 2,19%, o menor nível de cinco meses.

O Fed e o Banco Central do Canadá foram os únicos a injetar divisas no mercado ontem. No Canadá, o BC emprestou US$325,9 milhões aos bancos e anunciou recompra de 400 milhões de dólares canadenses em bônus. Também adotou medidas para facilitar saques de fundos. O Banco Central Europeu (BCE), por sua vez, suspendeu as injeções de recursos de curto prazo que vinha fazendo desde quinta-feira passada. E o Banco do Japão e o da Suíça retiraram mais de US$17 bilhões do mercado.

De acordo com Kenneth Bruce, o analista da Merril Lynch responsável pela alteração de recomendação dos papéis da Countrywide, o anúncio feito anteontem pela instituição de que o índice de inadimplência atingiu seu maior nível desde 2002 aumentou o risco de falência da empresa.

- Se houver suficiente pressão financeira sobre a Countrywide ou se o mercado perder a confiança na habilidade da empresa de operar propriamente, isso pode levar a uma efetiva insolvência. É possível que a Countrywide vá à falência - disse.

Comissão Européia vai investigar agências de classificação de risco

Além do receio quanto ao futuro da Countrywide, pesquisas divulgadas ontem influenciaram o mercado. A Associação Nacional do Setor Imobiliário (NAR, na sigla em inglês) revelou que o preço de casas para famílias sem filhos ficou em torno de US$223,8 mil no segundo trimestre, 1,5% abaixo da média de igual período do ano anterior. Foi o quarto trimestre consecutivo de queda. As vendas de imóveis residenciais também caíram. Considerando unidades vendidas no segundo trimestre, o volume anualizado seria de 5,91 milhões, 10,8% menos que em 2006.

O índice de preços ao consumidor dos EUA subiu 0,1% em julho, informou o Departamento de Trabalho americano.

A Comissão Européia, de acordo com o "Financial Times", vai investigar as agências de classificação de risco, por causa de sua lentidão em alertar os investidores sobre os riscos de investir em fundos com lastro em hipotecas de alto risco.

(*) Com agências internacionais