Título: Exportações e mercado interno mais aquecido são as armas do Brasil
Autor: Rodrigues, Luciana e Duarte, Patrícia
Fonte: O Globo, 16/08/2007, Economia, p. 24

TREMOR GLOBAL: Saldo cambial está positivo em US$3,4 bi até 10 de agosto.

País continua sendo recomendado por analistas e gestores de investimentos.

BRASÍLIA. Exportações diversificadas e crescimento baseado principalmente no mercado interno são vantagens adicionais com as quais o Brasil conta para enfrentar as turbulências financeiras que têm derrubado bolsas de valores do mundo inteiro e sustentam as afirmações do governo de que o país está blindado. Na avaliação do Banco Central (BC), compartilhada pela equipe econômica, o Brasil entrou no grupo dos emergentes seguros. Ao lado de México e Rússia, é uma das nações em desenvolvimento que, mesmo em meio à crise financeira, continua sendo recomendado por gestores de grandes fundos de investimento.

É uma situação oposta à vivida por Argentina, Venezuela e Equador, que têm sofrido bem mais com as turbulências. O risco-Argentina, por exemplo, teve alta bem superior à do risco-Brasil. E, mesmo se a crise financeira se acentuar e afetar o crescimento econômico mundial, a situação do Brasil é mais confortável do que a de outros emergentes que têm saldo externo favorável e reservas cambiais elevadas.

Na comparação com o México, por exemplo, o Brasil tem a seu favor uma pauta de exportações mais abrangente e voltada para diferentes países. A economia mexicana é muito dependente do desempenho industrial americano e, no caso de um desaquecimento nos EUA, sofreria bem mais. Já a Rússia garante reservas cambiais elevadas graças exclusivamente ao petróleo.

Mesmo assim, para o BC, as turbulências recentes são uma crise de mercado, e não da economia. No médio prazo, porém, se as perdas financeiras se acentuarem, podem contaminar a economia americana, já que os bancos ficariam mais rigorosos na concessão de crédito e o custo das hipotecas subiria, reduzindo o dinheiro disponível para os consumidores irem às compras. Ainda não é possível avaliar qual será a magnitude do freio na economia americana, mas haverá algum impacto, em maior ou menor grau.

Neste cenário, outro trunfo que diferencia o Brasil de outros emergentes é o fato de o crescimento da economia brasileira estar baseado muito mais no mercado interno - e, por isso, relativamente mais imune a um desaquecimento global.

Pelo lado financeiro, também não há preocupações. Ao contrário do que tem ocorrido nos EUA, Europa e Japão, onde os BCs vêm injetando recursos nos mercados devido à falta de liquidez - provocada por quebras de fundos e calotes de empréstimos - aqui o cenário é o oposto. E os dados do mercado chancelam a avaliação do BC brasileiro.

A autoridade monetária também está confiante de que os fundos de investimentos e os bancos brasileiros não têm ativos comprometidos em suas carteiras. Nas últimas semanas, fundos de diferentes países do mundo quebraram diante de enormes prejuízos com papéis lastreados nas hipotecas de alto risco dos EUA, as chamadas subprime. No Brasil, diz o BC, a cultura dos hedge funds (fundos mais agressivos) é diferente e não há o costume de aplicar em papéis do exterior.

De acordo com o Banco Central (BC), o fluxo cambial - que representa o saldo entre as entradas e saídas de moeda estrangeira no país - ficou positivo em US$3,376 bilhões entre os dias 1º e 10 de agosto. O desempenho foi sustentado pela balança comercial, já que a conta financeira ficou ligeiramente negativa, pela primeira vez desde janeiro - um indicativo de que o país não está totalmente imune ao estresse.

- Em agosto, devemos ter fluxos menores, mas não negativos. A perspectiva de que os fundamentos brasileiros estão mais sólidos ajuda - diz a diretora da câmbio da corretora AGK, Miriam Tavares.