Título: Crise é 1º grande teste da economia na era Lula
Autor: Rosa, Bruno
Fonte: O Globo, 17/08/2007, Economia, p. 23

TREMOR GLOBAL: Especialistas divergem sobre capacidade de o Brasil enfrentar instabilidade financeira mundial

Reservas cambiais de US$160 bi ajudam a aliviar impacto de turbulências, mas crescimento baixo prejudica

É a primeira vez que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta uma crise financeira de proporções internacionais. Sua extensão ainda é uma incógnita. Economistas podem discordar sobre a capacidade da economia de enfrentá-la, mas todos concordam que é temeroso prever sua extensão.

- Podemos supor que essa turbulência vai provocar uma crise patrimonial mundo afora. O mundo vai ficar mais pobre, o que vai provocar uma desaceleração da economia mundial - analisa o ex-diretor do Banco Central Carlos Tadeu de Freitas.

Não fosse a solidez das reservas cambiais de cerca de US$160 bilhões, diz Freitas, o Brasil poderia ter sido atingido em cheio pela turbulência do mercado internacional. Segundo ele, o país vai sofrer os impactos numa proporção menor do que outros mercados emergentes. A solidez a que Freitas se refere está baseada, de um lado, na composição da cesta de exportações brasileiras - na qual o maior peso recai sobre as commodities agrícolas -, e, de outro lado, na baixa exposição cambial, já que o país hoje é credor em dólar da dívida interna.

- Desta vez estamos com sorte. A economia brasileira está blindada - acredita o economista, acrescentando que a política econômica adotada pelo governo Lula vai passar por esse tremor financeiro melhor do que outros mercados.

Apesar da desaceleração global, Freitas acredita que o país não terá problemas em manter a meta de crescimento de 5% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país).

O professor do Instituto de Economia e diretor do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da Universidade de Campinas (Unicamp), Ricardo Carneiro, está mais pessimista, já que, apesar do dinamismo do cenário internacional, a economia brasileira não conseguiu, até agora, crescer na mesma velocidade. Com a desaceleração da economia mundial, o país terá que se voltar para o mercado interno. O problema, alerta o economista, é que talvez a economia doméstica não responda com o vigor desejado.

Papel brasileiro é o mais vendido entre os emergentes

O risco dos países emergentes teve forte alta ontem. O aumento do risco-Brasil esteve entre as maiores altas. Segundo Sidney Nehme, da corretora NGO, os investidores estrangeiros estão se desfazendo dos títulos brasileiros, já que esses papéis são os que oferecem mais liquidez entre os emergentes. O volume de papéis brasileiros negociado é também o maior entre os das nações em desenvolvimento.

- O Brasil está em uma posição melhor que os outros países emergentes. Por isso, o papel é bem vendido no exterior. Com isso, a queda do risco-Brasil acaba sendo maior. Mas não é porque há medo, e sim porque os investidores estrangeiros estão endividados querendo cobrir seus prejuízos com o subprime - conclui Nehme.

O risco-Brasil fechou ontem em 225 pontos, com alta de 11,39%. Mas outros países tiveram variação ainda maior. O risco da Ucrânia subiu 13,03% (243 pontos), e o da Turquia avançou 12,45% (255 pontos).