Título: Presidente: país se preparou 'como formiguinha'
Autor: Rosa, Bruno
Fonte: O Globo, 17/08/2007, Economia, p. 23

Mantega diz que crise ainda não afetou economia real. Tesouro suspende leilão de títulos.

RIO e BRASÍLIA. O presidente Lula afirmou ontem que o Brasil está passando com tranqüilidade pela crise econômica internacional. Segundo ele, o país tem reservas de US$158 bilhões. Ele disse ainda que a moeda continuará flutuando até que se ajuste ao novo cenário. Lula frisou que a entrada de dólares é maior do que a saída.

- Aprendi desde pequeno que é preciso cuidar muito bem do salário. Senão, no fim do mês, falta dinheiro. Fizemos o mesmo com a economia. Agimos com seriedade num momento em que muitos achavam que a gente deveria fazer loucuras. Como a formiguinha faz, nós nos preparamos para o inverno - afirmou o presidente durante visita ao Rio.

Lula disse ainda que está monitorando os reflexos da crise, mas que o Brasil sairá fortalecido.

- A crise é americana, uma crise dos fundos que apostaram em ganhar dinheiro fácil, como num cassino: pode ganhar, pode perder. Como o Brasil não quis ganhar dinheiro fácil, se preparou e agora tem uma economia sólida. Juntamos dinheiro e temos reservas. Espero que o mercado americano resolva sua crise para não afetar outros países.

Fuga de capitais não preocupa, diz Mantega

Após passar quase todo o dia falando a agências de notícias, numa tentativa de tranqüilizar os mercados, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que a crise passou ontem por um período de maior turbulência, e que o mundo se encontra, hoje, "no olho do furacão". Apesar do agravamento do cenário, Mantega reiterou que o impacto nas bolsas e, no caso do Brasil, a alta na cotação do dólar ainda não afetaram a economia real.

- Estamos no olho do furacão, que é quando as coisas parecem piorar. É normal, no mercado financeiro, que as coisas sejam dramatizadas. Quando você tem um período de calmaria e bonança, o pessoal exagera nas aplicações e se expõe mais ao risco. Quando há turbulência, há retração e fuga.

Na avaliação do ministro, as fortes perdas na bolsa e a disparada do dólar ontem foram resultado de um "efeito-manada" dos investidores. Fundos de perfil mais agressivo tiveram perdas expressivas e se desfizeram de ativos. Perguntado se havia preocupação com algum fundo específico, Mantega disse que os investidores que estão perdendo já ganharam muito. E que os prejuízos não contaminam grandes bancos nem a oferta de crédito no país.

- É natural que se ganhe e que se perca - afirmou.

Nos bastidores porém, técnicos da Fazenda acompanham com atenção pelo menos três grandes instituições que teriam registrado prejuízos expressivos em seus fundos.

Mantega descartou a adoção de medidas de controle de capital. O governo, disse, que não está preocupado com fuga de recursos, porque até ontem o saldo cambial seguia positivo, mesmo com a saída de investidores. Em sua opinião, a turbulência está afetando apenas o mercado financeiro.

- Ela não atinge a economia real - disse. - A turbulência deve ser uma realidade passageira. Não acredito que vão permanecer (em alta) nem a cotação do dólar, nem a do risco-país.

Ministro descarta alta de juros e ajuda do FMI

O ministro da Fazenda disse que ainda não é possível saber como a crise vai terminar:

- Turbulência nós sabemos quando começa, mas nunca quando termina. Mais cedo, afirmara que não há como o Brasil sair da turbulência sem arranhão.

- Não há nenhuma possibilidade de se sair ileso dessas turbulências - disse Mantega, descartando a necessidade de o Banco Central elevar juros ou de pedir ajuda ao Fundo Monetário Internacional.

Pela segunda vez em poucas semanas, o Tesouro Nacional decidiu ontem suspender um leilão de títulos públicos prefixados, que ocorre às quintas-feiras, pois os investidores cobravam taxas elevadas. Pesou na decisão o cálculo de que o Tesouro tem um colchão suficiente para ficar fora do mercado por até 120 dias. Segundo Mantega, o caixa é de R$280 bilhões:

- O mercado pedia 11,70% ou 11,80%, e não há razão para o Tesouro pagar isso. Vamos esperar o mercado se acalmar. Futuramente, as taxas voltarão para 10,70% ou 10,80%, e o Tesouro voltará a fazer leilões. (Com agências internacionais)