Título: Pânico na Bolsa
Autor: Rosa, Bruno
Fonte: O Globo, 17/08/2007, Economia, p. 23

No pior dia desde 11 de Setembro, Bovespa recua 9% mas fecha em queda de 2,58%.

ABolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) viveu um dia de pânico ontem. Após cair quase 9% ao longo do dia, a Bolsa - em seu pior momento desde os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 - acabou reduzindo sua queda no fim do dia e fechou em baixa de 2,58%, aos 48.015 pontos. O volume de negócios ficou acima da média, em R$8,4 bilhões. De acordo com analistas, o número indica o forte movimento de venda dos investidores. O aumento da aversão a risco e a conseqüente saída de investidores estrangeiros do país fizeram o dólar disparar mais uma vez. Na máxima do dia, a divisa chegou a marcar R$2,13, mas fechou em alta de 3,15% cotada a R$ 2,094. É o maior valor desde o dia 14 de março, quando ficou em R$2,099.

Com o medo de que a crise no mercado de hipotecas de alto risco (as chamadas subprime) dos EUA se alastre pela economia, o risco-Brasil disparou 11,38%, para 225 pontos centesimais. Foi a terceira maior alta entre os países emergentes. Segundo o JP Morgan, é o maior patamar desde 1 de dezembro do ano passado, quando ficou em 229 pontos. Na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), os juros projetados nos contratos com vencimento em janeiro de 2010 tiveram alta de 1,13 ponto percentual, para 12,85% anuais.

Cenário já mudou, afirma Lamy

Wall Street conseguiu, no fim do pregão, compensar a maior parte das perdas do dia, apesar da onda de pânico provocada pelas dificuldades financeiras da Countrywide Financial. A maior financiadora hipotecária dos EUA obteve US$11,5 bilhões de 40 bancos - não foram revelados quais - para garantir sua liquidez. Os recursos faziam parte de acordos de crédito fechados ano passado. Além disso, o banco de investimentos Bear Stearns vai demitir 240 pessoas em uma unidade de financiamento.

O Dow Jones fechou em queda de 0,12%, depois de ter caído cerca de 2,80% durante o pregão. É a sexta baixa consecutiva. Na Europa, todas as bolsas fecharam em queda. O panorama se repetiu nos mercados asiáticos: em Seul, a baixa foi de 6,93% e em Jacarta, de 5,94%.

Para José Alfredo Lamy, da Cenário Investimentos, não se trata mais de uma correção e sim de uma inversão de tendência. Segundo ele, depois de os mercados viverem anos de ouro, os investidores terão uma época de novos preços. Lamy ressalta que a alta nas taxas de juros dos EUA e da zona do euro indicava um menor crescimento mundial. E esse movimento, atesta, não estava sendo acompanhado pelas bolsas.

- Essa é a nova realidade. A moeda americana tende a ficar acima de R$2. O dólar, no entanto, vai cair a médio prazo porque a moeda americana mais valorizada vai impulsionar as exportações, equilibrando a entrada de divisas no país. Já a Bolsa terá uma queda maior e um tempo mais longo de preços baixos - diz Lamy.

Alfredo Coutino, economista sênior da Moody"s para América Latina, é mais pessimista. Para ele, os mercados vão sofrer mais, já que a atual turbulência pode durar meses a fio. Para o Brasil, o executivo prevê o dólar a R$2,30 nas próximas semanas. Em dezembro, no entanto, ele acredita que a divisa fique em R$2:

- Hoje, o Brasil é um dos mercados mais atrativos do mundo porque a economia está em recuperação. Só os investidores especulativos estão saindo do país, por isso a moeda pode voltar ao patamar de R$2 no fim do ano. Todas as moedas no mundo estão perdendo valor.

Banco prevê retração nos EUA

Coutino, no entanto, diz que a ação dos bancos centrais só injetou liquidez no sistema, mas os problemas continuam.

- Já há alguns sinais que Espanha e França apresentem problemas. Na Ásia, países como Cingapura, Coréia e Malásia também podem ter prejuízos porque têm títulos lastreados em subprime. Porém, ainda não se sabe qual é a magnitude da China.

O banco Merrill Lynch, segundo relatório enviado a clientes, já espera uma retração dos consumo nos EUA pela primeira vez em 17 anos. Assim, o medo fez com que os investidores migrassem para os títulos do Tesouro americano. Com a maior procura, o rendimento registrou forte queda. Ontem, o papel de referência para o mercado, com vencimento em dez anos, apresentou ganhos de 4,60% ao ano - rentabilidade 2,25% inferior ao dia anterior.

O presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de St. Louis, William Poole, afirmou que a turbulência dos mercados não afetou a economia americana. Já o secretário do Tesouro, Henry Paulson, disse que a atual crise nos mercados deve provocar uma desaceleração na economia, mas descartou uma recessão:

- A economia e os mercados têm força suficiente para absorver as perdas. Esta é a economia global mais forte que tivemos.

O Fed ontem entrou no mercado, injetando um total de US$17 bilhões, em duas operações.

(*) Com agências internacionais