Título: Mercado tem trégua com ação de BC americano
Autor: Rosa, Bruno e D'Ercole, Ronaldo
Fonte: O Globo, 18/08/2007, Economia, p. 33
Fed reduz taxa interbancária e Bolsa recupera parte das perdas, subindo 1,13%. Dólar recua 3,20%, para US$2,027.
RIO, SÃO PAULO, NOVA YORK e PEQUIM. Um dia depois de ter o pior pregão desde os atentados de 11 de Setembro, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) recuperou parte das perdas e fechou em alta de 1,13%, aos 48.558 pontos. É o primeiro fechamento positivo após seis quedas consecutivas. No dia, a queda chegou a 2,28%. Na semana, a desvalorização no pregão chega a 7,75%. O volume financeiro ainda foi significativo: R$6,63 bilhões. A alta, também vista nos mercados europeus e em Wall Street, deveu-se a uma nova ação do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), que reduziu a taxa de empréstimo interbancário.
Com os ânimos mais calmos, os investidores voltaram a aplicar recursos no país. Com isso, o dólar fechou em queda de 3,20%, cotado a R$2,027, depois de alta de 3,15% na véspera. Mais uma vez, o Banco Central (BC) não entrou no mercado. Na semana, a alta acumulada é de 3,89%. Movimento semelhante teve o risco-Brasil que subiu 11,38% na quinta-feira e caiu 7,5% ontem, para 208 pontos centesimais. Na semana, a alta é 12,43%.
- O movimento é simples. Quem saiu na quinta-feira voltou na sexta. Mas o clima de incerteza ainda é grande - diz Gustavo Barbeito, da Prosper.
O Fed reduziu sua taxa de redesconto (utilizada pela própria instituição em empréstimos de curto prazo para bancos com dificuldades financeiras) em meio ponto percentual, de 6,25% para 5,75% ao ano. Isso reduz os custos de financiamento, o que pode trazer alívio aos mercados. A taxa básica, porém, continuou em 5,25% anuais.
Foi a primeira mudança do Fed fora de suas reuniões regulares desde o 11 de Setembro. E, como o BC americano afirmou em nota que está pronto para agir quando necessário, os mercados viram aí uma mudança de viés.
Para Mantega, Brasil é sólido: "Sequer liguei para o FMI"
Com isso, o índice Dow Jones fechou em alta de 1,82%, e o Nasdaq, de 2,20%. Londres subiu 3,5% e Frankfurt, 1,86%. As commodities seguiram o movimento, puxadas por energia e metais. O barril do petróleo tipo Brent subiu 1%, para US$70,44, e o leve americano, 1,4%, para US$71,76. O ouro avançou 1,34%, para US$666,80 a onça troy (31,1 gramas do metal).
Já as bolsas da Ásia, refletindo o pânico de quinta-feira, registraram as maiores perdas semanais desde 1990. As bolsas de Tóquio e de Jacarta recuaram 5,42% e 5,94%, respectivamente, ao fim do dia, mesmo com o BC japonês injetando US$10,7 bilhões no sistema bancário.
Para Braulio Borges, economista da LCA Consultores, ficou claro que o Fed está agora mais preocupado com a atividade econômica que com a inflação:
- O Fed viu que a crise é maior do que se pensava.
Segundo analistas, o sobe-e-desce vai continuar à medida que surgirem novas instituições financeiras com problemas.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou ontem que a crise nos mercados continua circunscrita aos setores financeiros e de capitais, sem efeitos sobre a economia real do país. Ele elogiou a decisão do Fed, acrescentando que, se a taxa básica também fosse reduzida, a volatilidade seria debelada mais rapidamente.
Mantega reafirmou que turbulências como a atual servem para testar a solidez dos países, afetando mais aqueles com problemas no balanço de pagamentos e baixo nível de reservas. E assegurou que o Brasil está "no clube dos países sólidos":
- Sequer liguei para o FMI, e isso mostra a diferença fundamental em relação a outros momentos de turbulência.
(*) Correspondente, com agências internacionais