Título: Brasileiros no olho do furacão
Autor: Martins, Marília
Fonte: O Globo, 19/08/2007, Economia, p. 37

Inadimplentes e endividados, 5 mil já voltaram ao país devido à crise imobiliária dos EUA.

Acrise imobiliária americana, que fez tremer os mercados globais na semana passada, pegou em cheio os brasileiros. O Centro do Imigrante Brasileiro, em Boston, tem números que impressionam. Em 2006, ajudou três mil brasileiros a voltarem para casa. Até agora, agosto de 2007, esse número já chega a cinco mil. É gente que não consegue pagar a prestação da casa própria, perde o emprego e ainda acumula dívidas no cartão de crédito. Dos 2,6 milhões de brasileiros residentes no exterior, quase a metade vive nos EUA. Segundo estimativa do Itamaraty, há 1,12 milhão de brasileiros nos EUA, sendo 705 mil clandestinos. A região entre Nova York e Boston tem o maior número. São 350 mil, dos quais 245 mil irregulares. Na Flórida, sobretudo em Miami, está a segunda maior concentração de brasileiros: 250 mil, sendo 130 mil ilegais.

Miami e Boston estão também no epicentro da bolha imobiliária americana, cujas conseqüências, temem os especialistas, podem atingir toda a economia americana e a mundial. Os estudos dos economistas das agências de classificação de risco americanas revelam que as áreas mais atingidas pela crise são a Flórida (sobretudo Miami, Sarasota, Cape Coral), Boston e arredores, Las Vegas e Los Angeles. São também estas as regiões onde há maior desvalorização nos preços dos imóveis e maior risco de retomada das casas pelos financiadores por inadimplência dos mutuários.

Após 6 anos, dívida é de 100% da casa

São áreas onde há grande concentração de imigrantes da América Latina. Eles, os brasileiros em especial, estão entre as maiores vítimas da especulação com financiamentos de segunda linha, que os americanos chamam de subprime. A desvalorização dos imóveis varia de acordo com a região. Na Flórida é maior: chega a 50%. Em Boston está em torno de 20%, mas é o bastante para impedir que o mutuário consiga refinanciamento, porque isso é feito com base em garantia de emprego estável, adiantamento em dinheiro e valor de mercado do imóvel.

- Aqui na região de Boston, em cada dez casas tomadas pelos bancos por falta de pagamento, três são de brasileiros - conta Fausto da Rocha, diretor do Centro do Imigrante Brasileiro em Boston, ele próprio atingido pela crise. - Todos os dias recebemos no mínimo 20 pessoas com problemas de financiamento, tentando conseguir um advogado confiável. Em setembro, o centro vai contratar um advogado para cuidar só dos brasileiros.

Rocha diz que, entre 2000 e 2005, a população brasileira em Massachusetts (cuja capital é Boston) dobrou. Mas, desde meados de 2006, já diminuiu 50%.

- E o que é pior: os brasileiros perdem as suas economias e ainda voltam para casa com o nome sujo na praça - diz Rocha.

Com ele concorda Evaldo Vieira, um dos voluntários do centro:

- Os brasileiros são vítimas fáceis de corretores inescrupulosos, que se aproveitam do fato de que a maioria não fala inglês direito, não tem visto de trabalho e ainda assina o contrato sem entender os aumentos que tem pela frente. Em dois anos, perdem o emprego e suas economias viram pó.

Fausto da Rocha ganha a vida como locutor de um programa de rádio, em português, para ajudar brasileiros da região. Capixaba do interior, casado e pai de três filhos, está há 19 anos nos EUA, mas só em 2004 conseguiu o green card, visto de permanência. Ao longo dos anos, juntou dinheiro para dar entrada na casa própria. Chegou a fazer um curso de corretagem para aprender as armadilhas dos financiamentos. Mesmo assim caiu numa.

Há seis anos, pegou US$240 mil para comprar uma casa de três quartos e duas salas, com piscina. Era um imóvel antigo, de 1825, que precisava de reforma. Foi quando resolveu usar o cartão de crédito. As dívidas se acumularam, e a prestação subiu. Quando já havia passado de US$1.200 para US$2.300, Rocha resolveu fazer o primeiro refinanciamento do imóvel. Acertou com o banco um empréstimo, quitou o cartão de crédito e aceitou pagar juros maiores no esquema 80/20, ou seja, 80% do financiamento com um banco e 20% com outro.

Assim, passou a pagar duas prestações: a referente aos 80% tem juros de 7,95% ao ano; a outra, de 11,65%. Para quem ganha salário anual de US$49 mil e tem mulher que faz, às vezes, faxinas, as contas são apertadas, mesmo que o casal fique com renda mensal entre US$6 mil e US$7 mil. Ele continua endividado e está num plano provisório, pagando juros por dois anos, para tentar limpar seu nome. A prestação mensal está em US$3.300 (quase o triplo da inicial), a casa vale US$410 mil, e Rocha continua a dever 100% do imóvel.

Segundo ele, muita gente perde tudo porque não entende inglês, assina o contrato sem saber que há custos por fora, como seguro e impostos. Além disso, diz, na hora de refinanciar, muitos corretores exigem comissão, e os bancos pedem um adiantamento alto para aumentar o prazo:

- Esse adiantamento pode chegar a US$30 mil e, às vezes, é o bastante para que o mutuário desista e entregue o imóvel ao banco, perdendo tudo o que pagou até ali.

Valor alto para refinanciar débito

Foi o que aconteceu com José Maria Meira e sua mulher, Lurdes. Ele trabalhava numa firma de pintura, quando, em setembro de 2005, levantou US$465 mil na financiadora Capital One para comprar uma casa de dois quartos. Pretendia pagar em 30 anos. Em dois anos, a prestação passou de US$3.600 para US$4.200. Só que ele perdeu o emprego, passou sete meses imobilizado por causa de um acidente e devia US$15 mil no cartão de crédito, em nome da mulher.

Em agosto, foi ao banco refinanciar o débito. Descobriu que não podia. Exigiram que pagasse um adiantamento de US$30 mil e pegasse um empréstimo de US$580 mil, quando a casa valia, no máximo, US$540 mil. Meira desistiu: vai entregar as chaves ao banco no dia 31. E, com elas, todas as suas economias. Decidiu alugar um apartamento de dois quartos por US$1.200 e recomeçar, aos 48 anos.

- Passei quase um ano sem dormir direito. Tinha vontade de fugir, de abandonar tudo, de tanta humilhação. Esses corretores são desonestos e aproveitam que a gente não sabe inglês direito. O corretor não me avisou que o refinanciamento não estava garantido. Eles querem ficar com as economias da gente. Agora, vou pagar aluguel, mas vou conseguir dormir - diz Meira, pai de Andrew, de 18 anos, e Adriene, de 17 anos.

Ele agora é chefe de cozinha num café, e sua mulher faz serviços de faxina. Diz que só não volta para o Brasil porque os filhos não querem:

- Estou há 20 anos aqui e pensei que já tinha visto de tudo. Mas crise como esta é coisa que vai marcar esta comunidade. Os brasileiros precisam aprender a se defender. A gente só está levando na cabeça.

LÚCIA SE SALVOU NO ÚLTIMO MINUTO, na página 38