Título: Lula afirma que Brasil não tem medo da turbulência porque fez lição de casa
Autor: Gois, Chico de e Braga, Isabel
Fonte: O Globo, 21/08/2007, Economia, p. 23
TREMOR GLOBAL: Presidente ressalta que país tem reservas de US$160 bilhões.
Para ministro do Planejamento, governo agora precisa acompanhar situação.
BRASÍLIA e SÃO PAULO. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem, em seu programa semanal de rádio, que o Brasil não tem medo da crise financeira que provocou forte turbulência nos mercados na semana passada e ainda não está totalmente dissipada. Para o presidente, um ponto central endossa sua convicção: este é um país sério, que fez a "lição de casa" e tem reservas da ordem de US$160 bilhões.
Tudo isso somado, segundo Lula, possibilitará ao país atravessar a crise, que já elevou a cotação do dólar e o risco-país:
- No Brasil, parece que tem algumas pessoas que torcem para as coisas não darem certo, parece que tem pessoas que torcem para que a desgraça aconteça neste país. O dado concreto é que o Brasil não está com medo desta crise.
Para o presidente, o movimento da semana passada "é eminentemente americano":
- É uma crise do setor imobiliário americano e de alguns fundos que compraram títulos de terceira categoria, pensando em ganhar muito dinheiro, nos EUA. Na hora em que os EUA resolverem seu problema, não terá problema no mundo.
Meirelles: BC resistiu a pressões, garantindo solidez
Lula lembrou que, durante seu primeiro mandato, "muitos ficaram gritando pela imprensa" para que o governo gastasse mais, em vez de economizar e fazer superávit primário para pagar suas dívidas.
- Hoje temos a estabilidade macroeconômica necessária, as reservas necessárias para dizer: a crise que está acontecendo não vai afetar o Brasil.
Para o presidente, a preocupação do governo é a mesma dos emergentes, mas as reservas de US$160 bilhões garantirão tranqüilidade:
- Este país é um país sério, é um país governado com seriedade, nós aprendemos a fazer a lição de casa.
À noite, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, avaliou que, diante dos indicadores do dia, a crise já está diminuindo, e que, no Brasil, os efeitos foram muito pequenos. Segundo ele, o papel do governo, agora, é acompanhar os desdobramentos. Bernardo admitiu que houve momentos de apreensão e nervosismo:
- Temos que acompanhar e vigiar. Se houver um prolongamento da crise e uma queda no crescimento econômico mundial, isso poderá afetar o Brasil, mas não é o caso ainda.
Segundo o ministro, porém, não há como garantir que o Brasil não será afetado.
O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, descartou a possibilidade de o Brasil elevar a meta de superávit fiscal para conter um eventual agravamento da crise, como sugeriram economistas.
-- Acho que hoje ainda é prematuro. Vamos aguardar os desdobramentos da crise - disse, acrescentando que o país tem fundamentos sólidos.
Meirelles creditou tal solidez ao fato de o BC ter resistido às pressões de acelerar o processo de corte de juros, ou mesmo às críticas contra o aumento das reservas.